terça-feira, 16 de julho de 2019

A bela professora ribeirinha



   O povoado exultava quando chegava março. Ainda era época das chuvas. O casario de madeira, com exceção da casa do prefeito, ficava encharcado depois das tempestades. A madeira absorvia muita umidade, as chuvas atravessavam os telhados improvisados de palha ou de telhas precárias produzidas na olaria da vila. Era preciso instalar os mosquiteiros por volta das quatro da tarde, fechar as janelas e as portas, porque os mosquitos vinham com toda a voracidade de algum ponto da floresta. Aproveitava-se a energia elétrica proveniente de um gerador que funcionava das seis da tarde às dez da noite: via-se televisão quando essa moda havia chegado recentemente na vila, escutava-se rádio, bebia-se refresco gelado. A vida era difícil. Mas ninguém era infeliz. Em março, entre os temporais, um raio de sol em forma humana chegava ao lugar. Era a bela professora ribeirinha, trazida de barco desde a capital.
    As crianças amavam aquela professora. Os adultos também. Ela vinha, ficava um tempo, ia embora, porque o ensino na vila era feito por rodízio com outros professores. Seu nome era Maria da Conceição. Ou Maria de Nazaré? Isso pouco importa agora. Ensinava um pouco de tudo para as crianças e os adolescentes: desde a escrever direito, segundo as regras ortográficas e exercitando a caligrafia, para que as palavras ficassem legíveis; até os mistérios da matemática e da física, dizendo coisas que, de início, pareciam difíceis, mas ela dava um jeito de tornar nítido o obscuro. Dava exemplos engraçados; chegava a dizer que a Terra circundava o Sol como se fosse uma borboleta voando quase num círculo, em torno de uma chama de lamparina; e acrescentava conceitos de atrito, velocidade, espaço, tempo, tantas coisas aquela professora ensinava. E, à noite, quando os mais velhos se animavam, ela aproveitava aquele pouco tempo de energia elétrica de gerador para alfabetizar os ribeirinhos que se interessavam em aprender o abecedário e a escrever seu nome. Ela lhes dizia que eles, com as palavras, poderiam colocar no papel tudo que lhes acontecia, como as caçadas e pescarias, as manhãs ensolaradas, as noites enluaradas, tudo que houvesse na memória. E os ribeirinhos de cabelos brancos se atreviam a aprender a colocar no papel a realidade de suas vidas.
   Quando chegava o final de semana, às vezes havia missa. Passava um padre de tempos em tempos; somente quando ela foi embora de vez é que chegaram os evangélicos; todos se juntavam na mesma casa que serviam de escola; a professora gostava de missa, era devota de Nossa Senhora e do Espírito Santo. Costumava dizer que, todas as vezes em que pensamentos ruins vinham à sua cabeça, ela fechava os olhos e rezava uma ave-maria, ou o terço todo, porque Nossa Senhora vinha na claridade do Espírito Santo e a aconchegava na serenidade.
    Outras vezes, ela participava dos mutirões feitos para se recuperar a escola ou a casa de alguém necessitado. Juntava-se naquela tarefa em que cada um fazia um pouco para melhorar a vida. Enquanto o prefeito não cumpria a promessa de construir a casa dos professores, ela dormia de favor na casa de cada um dos habitantes da vila. Era muito simples. Gostava de comer peixe, todo tipo de peixe, e de sobremesa melancia. À noite se contentava com mingau, uma caneca de café com leite, umas bolachas de água e sal. Ela só demonstrava medo quando anoitecia e precisava ir ao banheiro sempre situado no fundo dos quintais; não era da escuridão que tinha medo, mas sim de topar com alguma cobra no meio do caminho; certa vez, houve, sim, uma jiboia grande, ou uma sucuri enorme, hoje a memória já não deixa lembrar direito, que tentou engolir uma criança; a professora pedia que alguém fosse com ela, de lanterna acesa e terçado na mão.
    Certa vez, a professora ribeirinha foi embora e nunca mais retornou. Vieram outras professoras, mas ninguém no mundo se parecia com a devota de Nossa Senhora e do Espírito Santo; ninguém ensinava do jeito que ela o fazia, ninguém falava de borboletas para exemplificar a órbita da Terra em torno do Sol.
   Ninguém dava notícia dela. Ninguém soube mais dela. Dizia-se que havia viajado, porque tinha um espírito de aventura e saíra pelo mundo à busca de um leopardo branco, o amor que ela conheceu numa dessas epifanias de Nossa Senhora em seu coração. Desconfiava-se, no entanto, que talvez ela houvesse desaparecido no naufrágio daqueles barcos que a conduziam à vila. Tanto se esperou a sua volta em vão. Mas a sua ausência nunca se tornou um vazio sem fundo, um oco sem vida; ao contrário, ela ficou vivendo entre os ribeirinhos na forma de presença que jamais se dissipa. Por isso, até hoje, naqueles ermos amazônicos, ninguém se refere a ela por seu nome de batismo, mas sim como a professora Saudade, o sentimento que ela deixou no coração da gente. Tomara que aquela mulher, tão bonita de alma, tão formosa de rosto e corpo, tenha encontrado seu leopardo branco numa órbita de borboletas ao redor do Sol; que ela seja muito feliz é o que a vila ribeirinha lhe deseja. 

quinta-feira, 27 de junho de 2019

A menina da Escandinávia


     Todas as manhãs, quando era dezembro e as crianças não precisavam mais ir às aulas, graças ao início das férias escolares, o menino descia a escadaria de madeira limosa do cortiço e se dirigia ao encontro da sua avó que lavava roupa na beira do rio Negro. Magrinho, pés descalços, andava cuidadosamente por entre os detritos e se sentava sobre a balsa de sapopemba da avó. Não se falavam, não era preciso, bastava um olhar bem dentro dos olhos do outro e esboçar um sorriso. Ele se sentia acolhido por aquela mulher acostumada a trabalhar desde o romper do dia. E ela, por sua vez, dividia sua solidão com seu neto. De vez em quando, dizia a ele pra não ficar tanto tempo debaixo daquele sol, e se lembrava do avô dele, um italiano branquelo. "Tu nasceu com a cor da pele daquele homem!", sussurrava a avó. Mas o menino, quando a quentura começava a tomar conta do seu corpo, se jogava no rio e se misturava com a natureza. Não havia mais menino, não havia mais avó, não havia mais rio, não havia mais cortiço, não havia mais floresta. Tudo que havia era somente vida, presença de vida, naquelas manhãs claras e calorosas, embora fosse dezembro, o mês em que começavam a cair as chuvas torrenciais sobre a Amazônia.
     "Vem pra cá, menino!", chamava a avó, quando deixava de esfregar a roupa suja e descansava um pouco. Era a hora da passagem do garapeiro. Como era mesmo o nome do garapeiro? Que importa lembrar isso agora? Vinha lá de longe o homem da canoa que transportava garapa e bolos de vários sabores - milho, mandioca, coco. O menino subia na balsa, sentava-se ao lado da avó, recebia a garapa servida num copo improvisado de papelão e o pedaço de bolo. O garapeiro gostava de conversar. Falava das coisas que aconteciam do outro lado do rio. Às vezes, reclamava dos grandes navios que singravam o rio Negro, cortando o horizonte. Que máquinas possantes eram aquelas? De onde vinham e para onde iam?
     Certa vez, o garapeiro, que conhecia muitas palavras, não apenas do português brasileiro, mas também dos muitos vocabulários indígenas e até dos idiomas europeus, se atreveu a dizer para a avó analfabeta do menino: "Aquele lá, grandão, cheio de gente que fica olhando pra cá, veio da Escandinávia!". A avó gargalhou, zombeteira, que palavra horrível era aquela? Escandinávia? Mas o menino não riu. E fixou o olhar no horizonte, no imenso navio, cujo comandante se aproximara além da conta, chegando mais perto das margens, provocando o alvoroço das águas, o banzeiro forte que até parecia uma onda de mar.
     O menino se levantou e acenou. A avó o olhou e julgou que ele estivesse endoidecendo. Bem que ela receava alguma estranheza naquela criança, coisas de estar ora aqui neste mundo, ora do outro lado, no meio do invisível. Ou então do gosto que ele tinha pelas palavras. Ou o medo que dava nela quando ele parecia cair num abismo de silêncio, como se não fosse mais menino e houvesse se transformado em pensamento. "Tu está olhando o quê?"
     "Uma menina da Escandinávia!", respondeu o menino.
     O garapeiro riu da imaginação infantil. A avó aprofundou o seu medo de que a loucura viesse pegar seu neto. Que o invisível o levasse para longe dela. Nem o garapeiro, nem a avó, nenhum dos dois conseguiria entender o enigmático espírito daquele menino capaz de enxergar uma menina no convés do enorme e possante navio no horizonte. Havia, sim, para ele, bem dentro da sua imaginação poética, uma menina que o olhava desde o navio. Uma menina que, em instantes, iria embora para longe dele. Qual seria o seu nome? Qual seria a cor dos seus olhos? Quais seriam os seus gostos? Será que ela gostava de filmes de faroeste? Será que escutava os boleros que o pai dele gostava de ouvir na boemia? Que tipo de amor fertilizava o coração daquela menina que lhe respondeu o aceno? Talvez ela quisesse vir para a beira do rio, ficar perto dele, beber um copo de garapa e comer um pedaço de bolo de mandioca. Talvez ela quisesse brincar de mergulhar e nadar no rio de águas escuras. Talvez até ela tomasse coragem de pôr os pés na miséria em que ele vivia.
     O navio se foi e levou a menina da Escandinávia para muito longe. Deu vontade nele de ser um pássaro para voar atrás daquela máquina que singrava os rios e os mares. Que levava um amor que só poderia ser factível num poema. Ele fechou os olhos e se despediu da menina da Escandinávia. Deu um salto para dentro d'água e ficou brincando com os encantados do fundo do rio.
     Quando voltou à tona, sua avó trabalhava arduamente debaixo do sol causticante, o garapeiro havia seguido seu destino.
    Ele se lembrou da menina da Escandinávia, olhou o horizonte e disse que, em alguma época, no visível ou no invisível, ele a encontraria dentro de um aceno de mãos. Não mais um aceno de despedida, e sim um gesto de quem chega para ficar e nunca mais ir embora. Intuiu que aquela menina muito provavelmente não gostava dos filmes de faroeste, nem de boleros melodramáticos, nem de frivolidades, nem de coisas que não tivessem o sabor de poesia. Disse a si mesmo que outro seria o lugar de encontro com aquela bela menina que ele conservou na memória. Talvez nos Noturnos de Chopin, talvez nos Allegros de Vivaldi, talvez nas Danças Húngaras de Brahms, talvez numa taça de vinho suave, talvez num almoço preparado e servido por ela em louças finas, talvez nos muitos poemas que foram escritos para que o amor não fosse um sem-lugar no mundo.
     A menina da Escandinávia é um poema do menino ribeirinho! Nada se parece tanto com a liberdade quanto esse escrito feito de garapa e de ventos, de sonhos e de águas, de visível com transcendência. Todos os dias, lá vem o navio, de muito longe, trazendo uma mulher que já foi menina encantada por um menino ribeirinho. Ele a espera. Todos os dias. Embalado por Chopin, Vivaldi e Brahms.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

A Onça Pintada


     Eu me encontrava numa rede instalada num tapiri. Próximo a mim, o Seu Chiquinho, um mateiro que me ensinou muitas coisas da vida na floresta, também se embalava noutra rede. Havia escurecido cedo. A gente havia feito fogo para espantar os bichos de hábitos noturnos e para aquecer a carne seca misturada com farinha. Havia chovido a tarde inteira. Sentimos o frio precoce da umidade da selva, que esfria de outro jeito, primeiro como gota de suor do calor, depois como água de neblina que vai nos invadindo paulatinamente. Quando chega a madrugada, então, sobe a friagem da terra e trinca os ossos. Estávamos no Tapiri do Km 14 da Estrada do Puraquequara, uma vicinal de piçarra, perpendicular à rodovia que leva de Manaus a Itacoatiara e que, depois de uns quarenta quilômetros, termina no Lago Puraquequara, próximo ao rio Amazonas.
     Deitamos cedo. Cada um teve seu turno de manter o fogo aceso. Dormir era cochilar. A floresta fala durante a noite suas palavras de perigo. Não é como durante o dia, quando dá para ouvir a revoada de pássaros, e tudo parece ter a nitidez de exuberância exótica. Ao anoitecer, os bichos e os encantados se misturam com fantasmas. Seu Chiquinho segurava sua espingarda; eu, a pistola. Naquela noite prolongada escutamos aquele urro inconfundível. Um urro fugaz que logo se deixa tomar pelo silêncio. A fala da onça-pintada. O jaguar da Amazônia. Que sobe em árvores atrás da sua presa e pega jacaré na beira do lago. O felino mais belo que pode existir.
     O tempo passou. Ela não nos atacou. Talvez o fogo a tivesse afugentado, talvez porque não fosse do destino de ninguém morrer naquela noite, talvez por qualquer outro motivo que não interessa saber. Mas a onça se aproximou, sim, furtiva, esfomeada. Ela deve ter recuado e descido o socavão mais próximo, porque havia caça perto do buritizal e do igarapé onde muito bicho ia beber água.
     No dia seguinte, bem cedo, Seu Chiquinho e eu preparamos o café quase em silêncio, lembrando a onça. Cada um foi mais macho do que o outro e não revelou que havia sentido o medo que faz a gente tremer e mijar de pavor. Saímos pela estrada e vimos as pegadas da onça-pintada, nítidas ainda no barro umedecido, ora rastros de aproximação, ora de afastamento. Seu Chiquinho apontou o chão e nada disse. Segui ao lado dele, entramos na floresta, tínhamos coisa para fazer. Percorremos a trilha por quase uma hora. Seu Chiquinho, de tantos anos de caminhar na floresta e de perceber suas estranhezas, me disse que estávamos sendo seguidos. Olhamos pro alto do socavão e a vimos: lá em cima, majestosa, a onça-pintada; e cá embaixo, no fundo da grota, dois homens silenciados pela força mística daquele jaguar brasileiro. Ela fixou o olhar em nós, insinuou um urro e se afastou, desaparecendo por entre as galharias e a vegetação densa. Soube ali que talvez uma onça-pintada fosse a evolução da espécie humana: sua "racionalidade" era só instinto; se estivesse com fome, nos atacaria; mas, plenamente saciada, por que se lançaria ao ataque? Por que matar apenas pelo gosto de matar? Essa selvageria pertence ao humano tresloucado, não faz parte da alma da onça-pintada.

                                                                     *

     Muitos anos depois, quando meus cabelos já haviam embranquecidos e eu perdera o hábito de frequentar a selva, conheci, numa cidade da Amazônia, a mais bela cunhã-poranga que já vi, que já não era mais mocinha no seu desabrochar de mulher, mas, não obstante, chegando aos quarenta anos, apareceu, diante de mim, como a mais formosa amazônida que eu já vira. Ela olhava o rio, como se tivesse precisão de trazer para si as luzes do horizonte. Cheguei perto dela como se movido por um desses encantamentos que abalam os adolescentes. Nada falei. Mas ela me deu bom dia e me perguntou o nome, e me indagou ainda se eu estava visitando a cidade e se eu gostava da vista das águas, porque, em sua lógica, se ela amava tudo aquilo, como um forasteiro não poderia amar também?
    Eu disse o meu nome e acrescentei que também era amazônida, ela não estava vendo minha cara? "Só se for índio europeu, tua pele é branquinha demais". Rimos. "E seu nome?", indaguei. Ela me disse: Nari Kaikusi. E riu muito de mim quando eu falei que aquilo não era nome de gente. Mas ela insistiu em afirmar que este era seu nome verdadeiro, o nome da sua alma, e que Nari, na língua macuxi, quer dizer perigo, e que Kakusi, no mesmo idioma, significa onça. Ela me fez lembrar a noite em que uma onça-pintada esteve tão perto de mim e do Seu Chiquinho. "Te dou medo?", ela quis saber. Eu disse que não, e acrescentei que conhecia bem as onças-pintadas.
     Ela me disse, então, que na cidade usava outro nome, que não era tão exótica como queria parecer. Seus pais haviam escolhido para ela um dos nomes de Nossa Senhora: a do Perpétuo Socorro. Poderia ter sido qualquer outro nome, desde que fosse uma homenagem à Nossa Senhora, porque ela nascera em um dia em que a cidade inteira vibrava numa procissão em louvor à mãe do Cristo de Deus. Soube, pela sua mãe, quando já era menina, que naquele dia em que nasceu havia um pássaro ferido numa árvore da rua por onde passava a procissão. E que esse pássaro, até então incapaz de alçar voo, tão logo a enxergou no colo da mãe, em seu retorno da maternidade, deu um salto para o espaço e reconquistou sua liberdade de percorrer a vastidão do mundo. Os peregrinos cantavam: "Ave! Ave! Ave Maria! Ave! Ave! Ave Maria!". E sua mãe lhe dissera que ela se chamaria Maria do Perpétuo Socorro, e que proporcionaria bem-aventuranças para os desprivilegiados na pobreza, e que correria o mundo em peripécias de mulher valente feito onça-pintada, e que sua vida seria uma boa aventura no rumo da claridade do Espírito Santo. A sua mãe lhe pôs esse apelido de criança: onça-pintada.
     Eu lhe disse muitas coisas. Ela escutou com atenção minha história de sobressaltos. E gostou quando eu lhe declamei poemas, exaltando aquela pele morena, os cabelos negros, o rosto belo, os olhos alegres, o corpo de mulher mais lindo da Amazônia, os seios, a nudez, o modo de andar, o jeito decidido de ser; e também seu espírito livre, tão forte e ao mesmo tempo tão doce; e tudo nela que não se podia expressar em palavras, tudo mesmo, até o seu invisível, sua alma. Andamos de mãos dadas pela cidade, fomos a tantos lugares, e ela, mesmo sem ser uma beata porque em seu corpo pulsava o gosto pelo amor humano, fez questão de me levar a uma igreja de onde, segundo me disse, extraía toda sua força de viver feliz, apesar de tantos sonhos não efetivados: a Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Também afirmou que, além daquela igreja, só encontrava ânimo no Sagrado da floresta que se divisava ao longe, cada vez mais distante, porque a cidade se ampliava todos os dias na forma de uma clareira mais e mais expandida, levando para tão longe tudo o que sempre estivera tão perto. Aproximou-se de mim e me deu um beijo na boca, dizendo, em tom de brincadeira: "Onça-pintada ama o Poeta!". Retruquei que não era poeta, que eu já havia me esquecido de todas as regras da poética, mas ela insistiu em que, durante toda sua vida, jamais homem algum lhe dissera coisas tão bonitas e tão meigas, como se as palavras, na boca de um macho, fossem bailarinas a dançar um Noturno de Chopin.

                                                                              *

     Nunca mais vi o Seu Chiquinho. Quando eu o conheci e era seu discípulo na floresta, era um jovenzinho entusiasmado; e ele já era um senhor magrinho, de uns cinquenta e tantos anos na época; e, embora fosse resistente de andar dias na selva sem dar mostras de cansaço, talvez não fosse de durar para sempre na cidade, onde esses espíritos da mata perecem depressa com as doenças urbanas e a velhice precoce.
     Todas as vezes que vou à Amazônia, procuro o Seu Chiquinho.
     Silêncio. Talvez ele tenha ido embora viver na mata ou nos rios. Talvez seja só vento. Talvez seja a terra de onde a friagem sobe, de madrugada, para trincar os ossos dos vivos. Talvez tudo isso e, para além dessas possibilidades, seja ele um desses encantados que fertilizam minha memória.

                                                                             *

     Hoje me lembro de Nari Kaikusi. Maria do Perpétuo Socorro. A onça-pintada. A mulher mais bela que vi na Amazônia. Aquela que, repleta da força de Nossa Senhora - Ave, Maria! - e do Sagrado que se encontra por toda parte da floresta, libertou um pássaro ferido, que era, ao fim e ao cabo, um homem desamparado entre suas angústias. O Poeta voltou a sorrir. O Sol retomou o seu brilho de outrora. Ainda há uma história inconclusa que precisa seguir adiante. Um destino que falta ser consumado.
     Quando eu fecho os olhos e me transporto para aqueles rios e para aquelas florestas, penso com amor na Onça-Pintada. Em meus sonhos, ela urra de saudade e ganas de viver, a sua fala de mulher valente; eu me aconchego dentro dela, me abraço com ela como se a vida fosse terminar no instante seguinte e ela me sentisse como o poema de amor que mais ama escutar.
     Ah, minha onça-pintada, que saudade! 
 

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A vida sempre se justifica por si mesma

    Muitas vezes me indaguei se haveria um instante em que a vida perderia todo o seu sentido de ser. Deparei com o primeiro problema para responder a essa pergunta: saber qual o sentido da vida. Tanto já se falou disso e tão pouco se pode dizer a esse respeito. De certo modo sabemos o sentido da vida, porém ignoramos como expressá-lo. Até porque quem sabe deveras essa resposta é a própria Vida, que se plasma em todos os viventes de qualquer natureza.
   Assim sendo, entre o nascer e o morrer, o sentido da vida se dá em nós quando simplesmente vivemos na liberdade de fazer aquilo com que estamos mais afinados. É uma forma autêntica de deixar a vida nos levar: que saibamos aproveitar a liberdade que ela nos concede para que liberemos uma identidade plena. Isso não significa viver ao deus-dará, como joguete ao vento, água de esgoto. Mas enquanto humano em plena liberdade, dono das próprias ventas, das próprias escolhas. Decidido.
Com efeito, cada um de nós pode ser um grande escritor, um grande astronauta, um grande algo qualquer. E essa grandeza pode estar nas coisas mais singelas, que menos chamam a atenção. A grandeza da simplicidade. A grandeza da inocência. A grandeza do inexprimível.
   Portanto, em sendo esse o sentido da vida, vivido e inexpressável, pude me voltar à questão anterior: se haveria um instante em que a vida perderia todo o seu sentido de ser. Aquele instante em que a gente diz, em desalento, que melhor mesmo é morrer. Que não vale a pena continuar, resistir, se encher de remédio, ser furado nas veias e drogado de tal modo que a vida seja retida.
   Haverá esse instante?
   Agora que estamos mais longevos, que até nos mantemos mais joviais e pujantes graças à indústria dos remédios, que chegamos a sonhar com a imortalidade se a ciência der um golpe de mestre na tal de morte, como dizer que há um instante em que a vida não se justifica mais? Todos queremos viver mais um instante, mesmo que seja na forma de cadáver ambulante. Ninguém quer lembrar sequer que todos os princípios tendem aos crepúsculos. Que não há como fugir daquilo que é por natureza. Que a morte é um mero completar de um destino. Que sempre foi assim e sempre vai ser. Que ontem foi o vizinho, que hoje foi um amigo ou um estranho, que amanhã será cada um de nós.
   Viver mais longamente nos dá a experiência de sentir a falência dos órgãos. Aquela mente brilhante de repente começa a se esquecer de tudo, a virar sombra. Aquele ente tão alegre, tão pleno, dançante feito bailarino, se torna triste, passivo, ausente. Aquele apetite e aquela sede mirram diante de um bom prato de comida e de um copo de água. Tudo passa. Tudo acaba. Menos nossa falta de resignação com o inexorável. Dói tudo no humano. Dói muito. A gente chora e imagina que a dor vai embora, que a existência será consubstanciada com o Eterno, a gente esperneia. Mas nada há o que fazer. A ciência não tem essa carta de baralho para vencer o perecível.
   Tempos atrás, numa emergência de hospital, uma amiga de andanças pelo mundo, em estado grave, segurou as minhas mãos e, retirando por segundos o tubo de respiração artificial, me suplicou, como se eu fosse um pequeno deus: "Humberto, eu não quero morrer! Eu não quero morrer!". Tão senil, idade tão avançada, o corpo todo comprometido, que eu poderia fazer naquela hora, se até mesmo o rezar com devoção hoje não produz mais qualquer tipo de milagre bíblico?
   Segurei suas mãos em silêncio. Meu abraço de solidariedade. Se for pra ir, que vá em paz. Se for pra ficar, que fique na serenidade. Que olhe tudo como se até a maior desventura fosse uma grande brincadeira. Deus não fala nessas horas.
   Deve haver algo além da imanência. Que valha a pena passar por isso aqui e ser recompensado depois. Ou talvez nada haja fora do imanente e todo o transcendente possível esteja aqui mesmo em nossos raros atos amorosos, gentis. Em qualquer dos casos, a vida sempre se justifica por si mesma. É uma impressão que sinto e que deve valer para alguma coisa. No mínimo para me sentir grato por estar vivo nas boas e nas más circunstâncias. Evoé!

terça-feira, 23 de abril de 2019

ROSALVO ACIOLI E CARLOS MOLITERNO: DOIS POETAS A CAMINHO DA PIÉRIA SOB O OLHAR GREGO DE RITA CODÁ



     Andamos robotizados no âmbito de um mundo tecnológico em que todas as coisas parecem haver se transformado em utensílios e no qual o próprio sentimento humano se molda sob a força dos algoritmos. A cada dia os nossos cálculos presunçosos buscam, de forma obstinada, medir e determinar a vida segundo uma subjetividade pragmática, lógica, científica e neurótica, numa tentativa de retirar da existência sua peculiaridade do imprevisível, do desamparo, da euforia, do medo, da própria mortalidade. Há um risco de que, em meio às turbulências contemporâneas, já não sejamos efetivamente humanos, não mais plasmados de carne e ossos, vísceras e espírito, porém anjos decaídos formatados por rebeldia, uniformidade e confusas fórmulas matemáticas. Vivemos sob a ameaça silenciosa e traiçoeira da aniquilação da nossa humanidade, o bem maior com que, desde sempre, nos movemos debaixo do Sol.
      Eis que, no entanto, em sentido redentor, manifesta-se um modo de ser oposto à automatização do homem e à deformidade de sua vida causada pelo excesso de técnica. Que não nega a força dos algoritmos. Que não desdenha da cibernética. Que não despreza a necessidade dos cálculos, prognósticos e previsões para o cotidiano. Que não desconsidera o valor dos utensílios. Que não rechaça o pragmático, o lógico, a tecnologia e sua matemática. Ao contrário: um modo de ser que, sem perder de vista a praticidade necessária à vida corriqueira, almeja devolver à existência algo esquecido no instante em que perdemos a possibilidade de sonhar: o arcaico milagroso, a época em que o caos originário adquiriu as formas e os nomes das coisas que vieram das sombras para o intenso da claridade do seu aparecer. Aquilo que, sob a força da gênese do Verbo, apareceu para existir em sua beleza e mortalidade, a existência finita dos homens e das coisas perecíveis, a transfiguração primordial do caos em linguagem poética, a vida precária e provisória consubstanciada com a imortalidade. Assim aprendemos a vencer a Morte: no dizer poético das Musas e nas suas peripécias contra o Esquecimento, quando, num enigmático, duplo e simultâneo acontecimento de apropriação, elas se apoderam do ente humano porque têm uma necessidade de se expressarem e porque, no mesmo instante, o homem precisa dessa expressão poética para suportar e reverenciar a precariedade e a finitude de sua própria vida. Em outras palavras, o fazer poético nos aparece como se fosse vereda a cruzar os sertões do mundo, no encalço da imortalidade, triunfando com as palavras sobre o Esquecimento. Afinal, o que é a Morte ante a Linguagem originária, senão o culminar histórico da vida do poeta que soube usar autenticamente sua liberdade criadora para configurar uma realidade imperecível?
   Assim nos diz Rita Codá, essa intérprete brilhante da Poesia, em sua perspectiva originariamente grega – ela, uma brasileira, nordestina, companheira inseparável de Hesíodo e Homero – ao recordar-nos, em seu livro Rosalvo Acioli e Carlos Moliterno: dois poetas a caminho da Piéria, que “mesmo na morada de Hades, aqueles que cultivam a poesia escaparão do anonimato e do esquecimento, ou seja, da lei da morte”. Sem dúvida alguma, o grande mérito da interpretação feita por Rita Codá se encontra na perspectiva da interpretação originária dos poemas de Inventário de cinzas e A ilha, livros que se fizeram escrever por intermédio desses dois grandes servos das Musas, aedos alagoanos, respectivamente, Rosalvo Acioli e Carlos Moliterno. Não é que a ensaísta desconsidere as teorias literárias e desconheça os rumos tomados pela poesia contemporânea. Mas sua ênfase não está na aplicação das teorias sobre os poemas, como se estes fossem meros objetos de um sujeito que os analisa friamente de acordo com essa ou aquela doutrina literária. Definitivamente, Rita Codá, com sua alma grega, lê e pensa os poemas com o olhar e o pensamento que enxergam o instante em que eles vieram do fundo do abismo e se desvelaram ao mundo como o mais originário que poderia emergir das entranhas das Musas. Ela fala desde o lugar do Originário, definido por Heidegger, no primeiro parágrafo de sua obra A origem da obra de arte: “aquilo a partir de onde e através do que algo é o que ele é e como ele é; a isto o que algo é, como ele é, chamamos sua essência”. Portanto, a proveniência da essência dos poemas de Rosalvo e Moliterno pode ser enxergada e experimentada na interpretação primorosa de Rita Codá. E nós, seus leitores, com o suporte dessa grande Mestra que emprega a linguagem não como mera comunicação, mas sim como o dizer do essencial, recebemos a dádiva de viver as circunstâncias em que se deu a gênese da notável poesia desses dois poetas alagoanos.
   Vontade sinto de falar dos poemas de Rosalvo Acioli e Carlos Moliterno. São grandiosos, magníficos. Mas essa tarefa, neste caso, coube à pena de Rita Codá: bravo, Mestra, bravo! Somos todos imortais, nós, os que fazemos e os que amamos a Poesia. Não morremos. As Musas nos poupam da Aniquilação. As palavras prevalecem enquanto vida.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Dona Ana sempre amada

Dona Ana sempre amada

     Ainda faltavam seis dias para que ela completasse dezessete anos. Pois no sábado, dez de agosto de 1957, ela sentiu as dores do parto logo depois do almoço. Foi levada às pressas para a Santa Casa de Misericórdia. Ali, faltando quinze minutos para as cinco da tarde, deu à luz seu primeiro filho, o primogênito dos nove que viriam mais tarde. Não sei como os astros se posicionavam no céu da Amazônia naquele instante. Tampouco se uma onça ou o Mapinguari urraram no fundo da floresta. Ou se os ventos moveram com mais força as águas do rio Negro. Até hoje ignoro se as grandiosidades e as pequenezes do nosso destino já se encontram presentes nessa primeira lufada de ar que penetra com força nos pulmões das crianças e delas arranca um choro de espanto. Eu era apenas um menino muito branquinho que havia brotado no meio da oca.
     Deixo a memória correr no rumo daquela época. A gente morava no final da Avenida Sete de Setembro, numa estância (nosso modo de dizer a palavra cortiço) que começava numa calçada esburacada e terminava numa escada de madeira encardida com vista para o rio Negro. Morava-se em quartos e porões em condições precárias. Havia um corredor úmido, de paredes verdes de musgo, que nos conduzia para o barranco do rio, depois de passar pelo pátio das latrinas coletivas.
     Desde pequena, minha mãe era trabalhadeira. Junto com a tia Rosa, sua irmã mais velha, ajudava a vovó Paula na lavagem de roupa pra fora. A vovó se sentava na balsa de sapopemba, debaixo de sol forte, e lavava a roupa das famílias de posse daquela provinciana Manaus. Mamãe e a tia Rosa cuidavam dos varais e quaravam os lençóis brancos. Daquele pedacinho de terra, entre o rio e o cortiço, cuidado por aquelas mulheres fortes e imbatíveis, vinha o pão de cada dia. Elas, mais tarde, passariam aquela roupa toda a ferro de carvão. E aos sábados, mamãe botava o tabuleiro de roupa na cabeça e ia embora para entregar às madames a roupa cheirosa da semana. E para trazer as trouxas de roupa suja.
     Certo dia chegaram ao cortiço uns soldados do quartel do Exército da ilha de São Vicente. Entre eles vinha um cabo de nome Humberto e que era conhecido como Ticá, porque gostava muito de beber um guaraná com esse nome. Era um moço humilde, gentil, galanteador. Conquistou a mamãe, que ainda pouco mais que uma criança foi dividir a vida com ele. Ela ignorava que ele também gostava muitíssimo de beber cerveja e arrastar os pés no Cabaré do Chinelo. Deu a ele muitos filhos e o perdoou incontáveis vezes por tantos desatinos. Cuidou dele até o fim.
     Hoje a mamãe enfrenta a ameaça do escuro do Alzheimer. Às vezes, ela se perde nas deslembranças, nos pesadelos, nos delírios, nas incertezas. Mas se reencontra com a lucidez quando suas crianças de antigamente, agora todas transformadas em gente madura, chegam à sua casa com os netos e bisnetos. Ela pede música e alegria, que já está exausta da melancolia e da solidão. Quando se perde a memória e o rumo das ventas, mergulha-se inevitavelmente num abismo desprovido de cantorias. Este é o caso dela. Ah se Deus pudesse quarar minha mãe num varal estendido às margens do rio Negro, ah quem dera ela pudesse receber tanto sol divino que desmanchasse a escuridão do Alzheimer e o esquecimento de si mesma. Mas as águas do rio Negro não são as águas de Betesda, e é preciso a gente se conformar com o desamparo debaixo dos céus.
     Que amanhã, segunda-feira,  faça um dia muito radiante em Manaus. Que a família se reúna em algum instante do dia. Que corra uma brisa fresca durante a tarde. Que à noite faça lua cheia exuberante sobre o rio Negro. Eu não vou estar presente. Ainda tenho coisas para fazer longe de lá, eu que me tornei estrangeiro dentro do meu próprio país e fui viver noutras terras. Mas sei que vou retornar para as grotas e os igarapés das minhas florestas. Vai chegar o dia em que meu exílio já não fará mais sentido. Então poderei me juntar, em definitivo, aos meus antepassados, aos meus mortos, aos meus vivos. Enquanto isso, brava dona Ana, mulher a quem devo a vida, por favor, venha um pouquinho para fora das sombras. De longe fico amando a senhora com todas as minhas forças, com toda minha virilidade, com toda minha inocência. Lá no fundo de mim existe um menino branquinho, meio espantado com a vida, que até hoje se lembra, com saudade, do seu aconchego.
   

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Platonismo botafoguense


   Raras vezes desci a serra para ver o Botafogo jogar e voltei contente do Rio. Ou sou pé-frio, ou meu time tem birra comigo e não vence por teimosia. Ainda assim, na semana seguinte, lá estou eu novamente a insistir por um pouco de alegria. Mas o Botafogo não dá sinal de vida.
   Nem sempre foi assim. Em meus tempos de menino na Amazônia, época sem televisão (que só chegaria a Manaus mais tarde), eu me valia do rádio do canto da sala. Ficava encostado no rádio. A transmissão era bem ruim, uma chiadeira interminável. Mas a voz do locutor a narrar o jogo do Botafogo no Maracanã me transfigurava todo: eu não ouvia a narração, eu enxergava imagens de grandeza, um filme de luta em que estrelavam Manga, Nilton Santos e tantos outros. Foi assim que comecei a torcer pelo Botafogo, ainda criança de imaginação fecunda: o Botafogo era uma idealidade, o Botafogo não era algo de se tocar com as mãos. Mas o que eu imaginava era sim realidade pronta para ser conferida: muitos craques, muitas vitórias, muitos gols, muitos títulos.
   Vim então para o Rio. Fui conhecer o Maracanã, que era bem menor do que o estádio imaginado pelo menino: um lugar onde os jogadores ficavam bem pequeninos para quem estava assistindo à partida da arquibancada. Tantos anos se passaram, agora o Botafogo joga mais no Engenho de Dentro e o Maracanã ficou muito menor depois das obras para a Copa de 2014 (menor em tamanho, menor no que lá se vê). Tudo ficou mediocremente menor.
   Preciso reconhecer: os jogadores do Botafogo de hoje têm um peso excessivo sobre eles e talvez se embaracem no gramado porque desconhecem a grandeza que o time já teve. A grandeza que era bem terrena, bem empírica, bem de se tocar com as mãos, bem de fazer muitos gols, bem de conquistar títulos. E que agora se tornou reminiscência, idealidade que não quer mais virar coisa humana, uma sensação de fogos fátuos e fantasmas no gramado. Os craques se foram, alguns envelheceram, alguns já se foram para longe daqui. Mas eles vivem na imaginação de quem, na arquibancada, espera, espera e espera. Fantasmas que me trazem aquela grandeza perdida e não me deixam esmorecer.
   Quando é o  próximo jogo?
   Lá estarei. Como se fosse ainda uma tarde de domingo com um rádio de pilha no canto da sala. A imaginar os meus heróis de outrora: Jairzinho, Gérson, Zagalo...
   Quem sabe, dentro de campo, vez por outra, os jogadores de hoje tomem jeito de luta e arte. E peguem o gosto de vencer! Ah isso vai ser bom: vou subir a serra bem contente.