sexta-feira, 14 de julho de 2023

TOMÉ MAYRUNA

PARTE I A MEMÓRIA

 (Os pensamentos e as falas derradeiras de Tomé Mayruna, na iminência da morte, conforme este romancista as captou e as reproduziu numa possível transliteração do indizível em palavras, sem chegar ao fundo de sua crueza inimaginável – traslado meramente literário daquilo que não se pode, com facilidade, traduzir em narrativa.)  


Capítulo 1

    Madrugada. Tomé Mayruna, sozinho numa cela fétida da delegacia de Marupiara, uma remota vila na Amazônia brasileira, olha o céu e o casario através das grades. A solidão e a iminência da morte fazem-no pensar e lembrar. “Daqui a pouco vai amanhecer. Sou testemunha solitária de tudo que acontece nesta hora que antecede o clarear do dia de meu santo guerreiro, São Jorge destemido, que matou muitos dragões e, dizem, vive mesmo na lua cheia. Segundo os índios mapanas, esse santo católico, a quem eles conhecem como Sawara Suçuarana, até hoje continua vivendo nos terreiros das malocas e nos oratórios das casas das benzedeiras. Apesar da minha fé nesse santo de guerra, sei que ele não vai aparecer, derrubando tudo com seu cavalo, dizimando os meus inimigos. O meu santo predileto está longe, brigando em outra parte desse céu grande de Deus, e é por isso que me sinto completamente abandonado. Nem os santos da igreja, nem os deuses da mata, nem os amigos do mundo, ninguém pode fazer nada por mim. Estou vendo o relógio de parede da delegacia, o guarda Silvério dormindo, uma luzinha de sol querendo aparecer entre nuvens escuras. Há tanto silêncio em Marupiara, uma espécie de sossego misterioso, um silêncio avassalador de Deus, que me assusto quando um galo canta, em algum quintal, um canto de presságio ruim. Nem os bichos experimentam paz nesta madrugada. Está mesmo amanhecendo e hoje vai ser um dia para ninguém esquecer, porque está marcada a morte de um homem na forca e faz mais de cem anos que aconteceu de alguém morrer assim em Marupiara. 

    Esse acontecimento estremeceu a vila: entre gente eufórica e gente pesarosa, houve quem chegou a encomendar terno de linho, vestido de seda, perfume estrangeiro, roupa de luto e velas roxas, para ver suspenso, no ar da manhã, aquele a quem todos acusam de ser o Mapinguari, o maldito que come carne humana, este humilde servo de Deus que vos fala. É assim, pertinho de clarear, que me desamparo com premonições e temores. O sol está para nascer sobre a mata, sobre a vila e sobre este rio de águas escuras que dá de beber ao povo, o rio Mutum. Os galos de Marupiara, pressentindo o que está para acontecer, se alvoroçam nos quintais, enquanto as mulheres se levantam, praguejando, para requentar o café. As crianças pulam da rede e procuram no guarda-roupa o traje de festa. Os homens, vestindo paletó de linho branco, preparam as garrafas de champanhe distribuídas ao povo por Virgílio Maroaga. O pastor Genevaldo, inimigo declarado do padre, juntou todos os pentecostais da vila e também se prepara para discursar. O padre João Pedro, me disse o delegado Mendes, virá para me confessar, um Santo Sacramento que dispenso sem o mínimo de arrependimento, porque estou desapontado com todos os santos. Talvez venham as mapanas, guiadas por Mayruna e pelo menino peludo chamado Catrimani Lobisomem. Talvez cantem aquela cantiga agoniada dos funerais da tribo. Talvez me auxiliem com encantamentos que desfaçam este imenso pesadelo em que me encontro. Com o sol da manhã, vai chegar o delegado Mendes, primando pela pontualidade, andando igual tartaruga devido à barriga avantajada, os olhos faiscando de ruindade, trajando a roupa domingueira, o crucifixo de ouro saindo da camisa. O gordo desgraçado talvez me olhe e me diga: ‘Tomé Mayruna, amaldiçoado Mapinguari, que cometeu o crime de raptar moça de família e pegar em armas contra gente de bem, chegou a tua hora!’      Ah, meu Deus do céu, me console: estou com medo de morrer, e isto digo porque sinto dor de barriga, vontade de defecar, um enorme pavor. Mas defecar o quê se faz quase três dias que estou em jejum, recusando a comida malcheirosa que o delegado Mendes manda me servir? Isso é pressentimento de morte. Sinto aperreio só de pensar que, daqui a pouco, vou ser enforcado. E eu nem sei o que vão fazer comigo depois de morto, porque ouvi Silvério cochichando que o delegado quer retalhar tudo, salgar e mandar jogar nas encruzilhadas, como um favor prestado a Virgílio Maroaga. É a morte se anunciando. Como dizia o meu pai, Ticá, quando a gente tem um pesadelo de que está morrendo, é porque vai morrer mesmo, e é preciso se acostumar depressa com a fatalidade. Mesmo tremendo todo, afirmo que nunca fui homem de sentir medo e fraquejar. Enfrentei e venci todos os perigos: atocaiei os meus inimigos onde e quando menos esperavam; peguei onça-pintada na ponta do terçado; me criei na mata e nas montanhas caçando, pescando e subindo em árvore; aprendi a urrar igual aos macacos guaribas, esse urro amedrontador que vem do fundo da floresta como fúria que vibra; e, finalmente, afrontei Virgílio Maroaga, o homem mais rico de todas estas terras que meus olhos conseguem enxergar, unicamente por um amor de perdição pela filha dele, Letícia, moça corajosa que abandonou uma vida de bem-aventuranças e comigo fugiu contrariando a vontade do pai. 

    Daqui a pouco vou me encontrar com Letícia em alguma vereda do céu ou da terra. Enquanto isso, nesta circunstância aflitiva, fico me lembrando daqueles dias em que atravessamos a floresta, perseguidos por homens e cachorros sanguinários, sonhando com uma casinha na beira do rio e uma porção de filhos. Essa moça, dona dos meus mais sublimes sentimentos, eu a vi morrer de uma doença misteriosa sem nome. Eu me lembro bem daquela tarde na mata. Letícia reclamava de umas dores no estômago, delirava de febre. Me sentei com ela na beira do igarapé, rezando, atribulado. Meus olhos se enchem de lágrimas só de me lembrar. Eu rezava com extremo fervor, mas a reza era absorvida pela floresta e não cruzava o topo das árvores, não buscava o céu. Ah, que desespero: não muito longe, vinham os pistoleiros e os cachorros em nosso encalço. 

    O tempo de fugir diminuía, estávamos acuados. E tudo piorou quando caiu a tempestade, enchendo a selva de brumas e melancolia. Letícia, com os olhos opacos, bem abraçada comigo, foi ficando molinha, desfalecendo devagar, sem mais me reconhecer. Eu lhe disse: ‘Sou eu, Tomé. Está me escutando? Diga que está me ouvindo’. Nada me respondeu. Imersos na cerração, ficamos entregues à vontade absoluta de Deus, à inconstância do destino, ao acaso das coisas. Depressa escureceu e depressa perdi, definitivamente, minha maior claridade da vida: foi-se Letícia, tão amolecida nos meus braços, mais parecendo estar dormindo. Olhei para cima, vi um pedacinho de céu da noite precoce através da mata, rezei fervorosamente, mas faltou Deus aparecer. Chorei lastimosamente: ‘Letícia, meu bem, aonde você foi? Tão apressada, nem me esperou. Que vazio vai deixar dentro de mim’. Quando estava para amanhecer, tive pensamentos ruins de morte. Ficar ali para sempre, ir ao encontro do meu amor. Mas, por cima das águas do igarapé, na cerração da manhã por nascer, o vulto de Letícia surgiu, subitamente, me sorrindo e me convencendo a viver. Aturdido, meio dormindo, meio acordado, gritei o nome dela. A aparição se desfez e me deixou amortecido, quase sem força para me levantar. Abri os olhos de vez, criei coragem e me levantei para enterrá-la. Meti o terçado na terra fofa e cavei. Falando deveras: chorei, em cima daquele túmulo improvisado, todas as lágrimas que um homem pode chorar quando perde a mulher do coração.” 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

LOUVOR A DANY SAKUGAWA

      Datilógrafo aos onze anos, escritor-menino aos doze, numa pequena cidade do interior da Amazônia. Uma máquina de escrever. De repente, uma súbita vontade de trazer, para a clareza da vida, palavras enclausuradas no silêncio da criança, naquele instante sob a posse de mundos invisíveis. Manhã de temporal, havia goteiras na casa de madeira. Muita chuva e relâmpagos no céu escurecido, mesmo que ainda não fosse meio-dia.

     Disso o escritor-menino jamais se esqueceria. Uma literatura que veio do temporal e de uma potência de espírito que não era possível compreender. O menino se deixou levar pelo êxtase, saltou de si mesmo para o interior da ciranda das palavras. Nunca mais se separaram, ele e as palavras. E viveram, até os dias de hoje, uma história amorosa, ora com força de ventania, ora com gosto de desamparo, ora com reverência ao mistério da escrita, ora com a leviandade narcísica de brilhar diante do mundo. Demorou bastante, até que escritor e literatura se viram, de relance, cara a cara, uma experiência repentina que pôs no horizonte a perspectiva existencial de suas histórias. O escritor, não mais menino, agora homem mais próximo do silêncio infinito, finalmente compreendeu que o extraordinário daquela manhã de temporal, sua literatura, não passava de um engendramento do seu destino. Escrever nada mais era do que seu artifício existencial para suportar as intensidades da vida. Aquietou-se em seu anonimato, ele e suas palavras, entranhados numa espécie de pacto poético em nome da lucidez e do apego ao absolutamente essencial para viver. Apesar de toda essa sensatez, de todo o desapego ao mundano, perdurou certa melancolia decorrente da indiferença dos outros.

     Então, certo dia, o homem feito experimentou outra vez algo próximo daquela centelha criadora da manhã de temporal de sua infância. Das redes sociais, surgiu uma voz em defesa de todos os escritores anônimos, com uma eloquência que encorajava até os mais tímidos e dissipava a solidez dos medos. Uma mulher, com a experiência de longos anos no mercado editorial, desfazia todas as artimanhas mercantilistas que matam a obra literária, revertendo o negativo em ato de criação. Animava as gentes das letras ao enfrentamento dos perigos. Suas palavras entusiasmadas transformavam o marketing literário numa ludicidade de enorme eficácia contra os fracassos e esquecimentos. Ao referir-se aos leitores inconquistáveis, dizia, como quem fala para crianças: "Os leitores são Borboletas! Não corram atrás das borboletas! Cuidem do seu jardim, que as Borboletas virão...". 

    O escritor relutou diante daquelas palavras incisivas. Ele detestava marketing literário. Isso não era problema dele, mas das editoras, das livrarias, da mídia, dos especialistas. Para ele, o marketing destruía a obra de arte literária, transformando-a em simples utensílio, tal qual um martelo exposto numa loja de ferramentas ou qualquer coisa exposta numa vitrine de shopping. Pior ainda: entulhava o mundo com porcarias que em nada contribuíam para o gosto do povo pela boa leitura e pela boa escrita. Toda essa resistência, entretanto, não passava de ressentimento do escritor triste e desconhecido.

    Ela dizia: "O mundo dos livros tem suas regras, o escritor precisa saber como o jogo funciona". Sabe-se que, apesar de milhares de livros publicados, apenas 1% dos autores terá a possibilidade de se tornar um escritor de sucesso. Aliás, mesmo para os consagrados, o ímpeto no jogo precisa ser mantido, se a vontade for ter a companhia permanente das Borboletas.

   "Cuide do seu jardim, escritor! Cuide do seu jardim!".

    Ora, mas o que é cuidar do jardim de escritor? Escrever uma obra-prima? Regar as plantas? Fazer-se jardineiro de si mesmo?

    Que história é essa de livros ruins, alguns até estúpidos, venderem mais do que livros bons, que só alguns poucos leem? A moça respondeu: "O que tiver melhor marketing venderá mais do que seu concorrente."

    O escritor mostrou seu livro premiado, trouxe todas as obras publicadas e inéditas, e indagou: "O que faltou fazer?"

    A moça respondeu: "Faltou estratégia. O escritor precisa ser estrategista. Conhecer e aplicar a Matriz do Autor Estratégico - leia-se: cuidar do seu próprio jardim e atrair as Borboletas - são tarefas tão essenciais quanto escrever o livro. Isso, sim, faltou". 

    Uma fala de mulher revolucionária e criadora: as palavras da Dany. 

   Sim, há no Brasil uma revolução no mundo literário. A comandante dessa guerrilha em favor dos escritores e seus livros se chama Dany Sakugawa. Ignoro se fazia sol ou chuva quando ela, em algum instante de sua vida, teve a ideia de deixar para trás tudo o que fazia, a fim de criar  o seu The Book Business, que é uma espécie de Guia de Alquimista que assinala o pote de ouro no fim do arco-íris, um trajeto de muita luta, uma vereda de muitos perigos. Mas qualquer um pode chegar ao ouro do alquimista. Abriu-se um espaço de grande amplidão para tantos escritores brasileiros que se veem perdidos, contando apenas com o talento literário, nessa guerra sem trégua do mercado.

   Eu não gosto do mercado. Mas, ainda que sinta horror a esse capitalismo destrutivo de todas as formas humanas criadoras, ainda que me doa a vitória dessa teoria de tudo vender, consumir e descartar, ainda assim não é do meu direito esquecer o mundo tal qual este é. Desconhecer as regras do jogo é o mesmo que perder a guerra antes do primeiro disparo. Ou desistir do poema e se render à aridez do corriqueiro. 

   Este texto não é uma peça de propaganda. Mas sim o meu louvor a Dany Sakugawa, que está lançando claridades sobre a Literatura Brasileira. É possível conhecê-la no Instagram, todas as terças-feiras, às 20h. Lá vocês vão ver uma mulher que, embora tendo nascido em lar humilde, desde pequena esteve entre os livros. Por isso se dá tão bem com eles, que são seus cúmplices nessa luta civilizatória.

    Ela tem muito a dizer. Escutem essa comandante de nossa guerrilha literária!

   Dany Sakugawa faz bem para o mundo só com o simples fato de existir.

   Louvada seja a Dany!