quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Águas Mornas

Superfícies e subterrâneos

       A vida, em certo ponto do tempo, me deixou com a impressão de que tudo começa e acaba diariamente. Um instante é a claridade, outro, o espasmo do escuro. Não obstante, eu resisto e sobrevivo em meu espelho, entre traços de memória e simples rugas que desencobrem a finitude. Rodopio no redemoinho dos relógios, sem discernimento dos começos e fins, atordoado pelo cotidiano, conhecendo apenas o tempo trivial, mas nunca o sem tempo, outro nome do eterno. Estou no mundo, sozinho nas multidões, tateando no meio dos ruídos, sabendo que no acerto das contas o resultado final é o silêncio irreversível.



Fujo; todos os dias eu fujo; escapo das ruas, escapo dos ruídos, escapo da poeira; eu me transformo em vento e planta, eu me disfarço de rocha, eu me esculpo em argila, numa evasão incessante sob as chuvas cálidas que fazem brotar tudo que já morreu. Sempre que chove calidamente, uma semente se retesa para aflorar na terra, um pássaro salta do ninho para as nuvens, uma mulher se prepara para acolher em si, amorosamente, o corpo de alguém. 
        Por que o homem vive tão diferente dos bichos e das plantas, que não se preocupam com mortalidade?  Ou mesmo das rochas que se deixam amar pelos ventos, numa dança sensual de saltimbanco? Isso é tudo; e isso é nada; e isso é o bastante: a vida, tal qual ela é: às vezes tão clareada, outras vezes tão sombria, mas ainda assim vida. Para que escrever tantos versos, se basta a poesia do amanhecer e do anoitecer? 
        Até acho que a vida, fora do poema escrito, é mais poesia do que se pode supor. Mesmo sendo vida transitória, sujeita à aniquilação. Mas a gente escreve por causa do medo de desaparecer e ser esquecido. Almeja-se fazer de cada vida corriqueira um destino monumental. Talvez por isso, então, com esse desesperado intuito de atenuar o horror à finitude, tenhamos inventado a escrita rupestre, os hieróglifos e os pergaminhos, a prensa e os livros, a poética da memória. Deve haver, pois, algum antídoto de resistência na palavra, certo vigor arcaico para se enfrentar a morte, não com punhais e metralhadoras, nem com lágrimas e rezas, nem com apatia ou desespero, mas com uns poucos versos de bravura, guerrilha e barricadas; de um lado o homem, sua nudez, sua fraqueza; do outro, uma metafísica monumental e incompreensível.  
        Como viver, então, em conluio ou em confronto com o outrora, o hoje, o amanhã e, principalmente, o depois de tudo que ninguém sabe como é? Talvez a gente precise aprender a viver como um rio desassossegado e suas águas-bailarinas, que ora são águas de nascente, ora águas de correr nas ribanceiras e planícies, ora águas que se abandonam de vez à vastidão da foz. Abandono, perda, tristeza. É o que se sente quando o rio desaparece no delta. Mas a melancolia é somente um instante prolongado de sombra em meio aos outros instantes de esplendor na vida. Segue-se a vida enigmática. Os enigmas são como nascentes e poentes, ou como superfícies e subterrâneos, inclusive o mistério de morrer. Pode ser que, depois da morte, não haja claridade ou treva, nem lugar algum; pode ser assim e pode ser o contrário. Que importa isso? Durar ou dissipar. Isso é o de menos. A vida é para sempre enquanto for lembrada. Quem há de morrer no vigor resistente da memória e da palavra?

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Os setenta e cinco mil


Ontem de madrugada bem cedinho
Passou na rua um povinho
Cantando tristemente.
Um povinho que não era mais gente...

Almas posseiras da calçada,
Buscavam um sol que cintilava
Muito no outrora, antigamente,
Quando eles eram simples gente...

Fantasmas falam no ritmo dos ventos
Discursos misteriosos, tantos lamentos,
Tantas feridas abertas na memória,
Vilarejos queimados, colheitas perdidas,
Inocentes fuzilados, muitos velórios,
Tanta vida desperdiçada, ah tanta vida...

Eu quis escrever em desespero
Um longo poema de guerra...

— Não! Não! Esqueça os horrores, poeta,
Nenhum de nós agora se interessa
Por política, disputa de terra,
Bravura, covardia, tiros de morteiro...


Eu quis escrever em desespero
Um longo poema de guerra...

— Não! Não! Fale da roupa domingueira
Usada na missa, das brincadeiras
Das crianças
E de suas bandeiras brancas,
Das mulheres e seus vestidos floridos,
Dos homens e suas camisas vermelhas,
Da cor do sol, do sol que era bonito...

Eu quis escrever em desespero
Um longo poema de guerra...

Heróis e revoluções latino-americanas,
Guerrilheiros e soldados com ódio,
Casas vazias, mulheres e crianças
Sós, saudosas, sem nenhuma glória.

— Não, poeta, queremos ver o amanhã,
Substitua os assuntos de batalha e guerrilha
Por versos tão doces quanto torta de maçã!
Dê sua mão, venha, venha por esta trilha
Conhecer nosso rancho nas estrelas,
Escutar cantigas camponesas,
Comer ovos mexidos na frigideira...

Desisti finalmente do horror,
Da morte e seus miasmas,
Escutei os milhares de fantasmas
Da guerra sangrenta de El Salvador
— setenta e cinco mil
Mortos, o valor da guerra civil! —

Eu quis escrever em desespero
Um longo poema de guerra,
Mas por que desperdiçaria versos
Se isto não vale a pena mesmo?

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Textos que integram o livro Águas Mornas, 2ª edição, revisado pelo autor e publicado pela editora Novo Século. O livro pode ser encontrado nos sites da própria editora (www.gruponovoseculo.com.br) e das livrarias do país. Melhores preços na Amazon Brasil (www.amazon.com.br).

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

TOMÉ MAYRUNA

Prólogo
Por que escrever Tomé Mayruna?
Fiz do meu particular universo mítico um poético e abstrato refúgio chamado Literatura. Nessa espécie de lugar sagrado, convergem para um ponto impreciso de mim sonhos e memórias, que somente subsistem graças à arte das palavras - uns poucos substantivos, alguns sóbrios adjetivos e dois verbos prediletos, desejar e lembrar, que eu conjugo como quem decifra a metáfora do tempo e a substância da vida: nunca estou em lugar algum, vivo no fluxo apressado dos acontecimentos.

        Dependo de reminiscências ou da imaginação para viver. Em outras palavras, só enxergo manhãs clareadas quando já vi e memorizei o sol. Escrevo textos aturdidos e urgentes, imitações do canto das cigarras de minha rua, que cantam com frenesi porque pressentem a perturbadora transitoriedade das coisas - cantam para a vida e secam para a morte. Todos somos simulacros de cigarras, chegamos e vamos embora na vertigem do tempo, aparecemos com o sol e sumimos na escuridão, brotamos na saudade alheia e murchamos no esquecimento do mundo. Existir e perecer formam a mesma metáfora das horas perdidas e dos milagres ansiados.
        Algumas vezes, risco traços alegres ou não às variadas lembranças de minha existência e construo memórias fingidas dentro de memórias verídicas - mergulho, por assim dizer, em um labirinto de reminiscências superpostas. Esse é um privilégio dos poetas e dos loucos, dispor do atributo de lembrar o fato que existiu e o fato ainda por inventar - afinal, toda literatura tem um resíduo indelével da loucura criativa e da fecunda fragilidade humana. Escrever Tomé Mayruna resulta desse incompreensível fato: se não o escrevo, me transformo em cigarra com morte anunciada.  Trata-se de uma tentativa de testemunho romanceado de muitos dramas individuais e coletivos que presenciei e/ou vivi na Amazônia brasileira. Perdoem-me por meus exageros, por algumas inverossimilhanças e pela tendência de enxergar o sobrenatural onde só há coisas simplesmente humanas.
                                                                       Humberto B. Leal



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PARTE I
A MEMÓRIA
(Os pensamentos e as falas derradeiras de Tomé Mayruna, na iminência da morte, conforme este romancista as captou e as reproduziu numa possível transliteração do indizível em palavras, sem chegar ao fundo de sua crueza inimaginável – traslado meramente literário daquilo que não se pode, com facilidade, traduzir em narrativa.)



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 Capítulo 1

            Madrugada. Tomé Mayruna, sozinho numa cela fétida da delegacia de Marupiara, uma remota vila na Amazônia brasileira, olha o céu e o casario através das grades. A solidão e a iminência da morte fazem-no pensar e lembrar.

            “Daqui a pouco vai amanhecer. Sou testemunha solitária de tudo que acontece nesta hora que antecede o clarear do dia de meu santo guerreiro, São Jorge destemido, que matou muitos dragões e, dizem, vive mesmo na Lua Cheia. Segundo os índios mapanas, esse santo católico, a quem eles conhecem como Sawara Suçuarana, até hoje continua vivendo nos terreiros das malocas e nos oratórios das casas das benzedeiras. Apesar da minha fé nesse santo de guerra, sei que ele não vai aparecer, derrubando tudo com seu cavalo, dizimando os meus inimigos. O meu santo predileto está longe, brigando em outra parte desse céu grande de Deus, e é por isso que me sinto completamente abandonado. Nem os santos da igreja, nem os deuses da mata, nem os amigos do mundo, ninguém pode fazer nada por mim.
        Estou vendo o relógio de parede da delegacia, o guarda Silvério dormindo, uma luzinha de sol querendo aparecer entre nuvens escuras. Há tanto silêncio em Marupiara, uma espécie de sossego misterioso, um silêncio avassalador de Deus, que me assusto quando um galo canta, em algum quintal, um canto de presságio ruim. Nem os bichos experimentam paz nesta madrugada.
        Está mesmo amanhecendo e hoje vai ser um dia para ninguém esquecer, porque está marcada a morte de um homem na forca e faz mais de cem anos que aconteceu  de alguém morrer assim em Marupiara. Esse acontecimento estremeceu a vila: entre gente eufórica e gente pesarosa, houve quem chegou a encomendar terno de linho, vestido de seda, perfume estrangeiro, roupa de luto e velas roxas, para ver suspenso, no ar da manhã, aquele a quem todos acusam de ser o Mapinguari, o maldito que come carne humana, este humilde servo de Deus que vos fala.
        É assim, pertinho de clarear, que me desamparo com premonições e temores. O sol está para nascer sobre a mata, sobre a vila e sobre este rio de águas escuras que dá de beber ao povo, o rio Mutum. Os galos de Marupiara, pressentindo o que está para acontecer, se alvoroçam nos quintais, enquanto as mulheres se levantam, praguejando, para requentar o café. As crianças pulam da rede e procuram no guarda-roupa o traje de festa. Os homens, vestindo paletó de linho branco, preparam as garrafas de champanhe distribuídas ao povo por Virgílio Maroaga. O pastor Genevaldo, inimigo declarado do padre, juntou todos os pentecostais da vila e também se prepara para discursar. O padre João Pedro, me disse o delegado Mendes, virá para me confessar, um Santo Sacramento que dispenso sem o mínimo de arrependimento, porque estou desapontado com todos os santos.
        Talvez venham as mapanas, guiadas por Mayruna e pelo menino peludo chamado Catrimani Lobisomem. Talvez cantem aquela cantiga agoniada dos funerais da tribo. Talvez me auxiliem com encantamentos que desfaçam este imenso pesadelo em que me encontro.
        Com o sol da manhã, vai chegar o delegado Mendes, primando pela pontualidade, andando igual tartaruga devido à barriga avantajada, os olhos faiscando de ruindade, trajando a roupa domingueira, o crucifixo de ouro saindo da camisa. O gordo desgraçado talvez me olhe e me diga: ‘Tomé Mayruna, amaldiçoado Mapinguari, que cometeu o crime de raptar moça de família e pegar em armas contra gente de bem, chegou a tua hora!’
        Ah, meu Deus do céu, me console: estou com medo de morrer, e isto digo porque sinto dor de barriga, vontade de defecar, um enorme pavor. Mas defecar o quê se faz quase três dias que estou em jejum, recusando a comida malcheirosa que o delegado Mendes manda me servir?
        Isso é pressentimento de morte. Sinto aperreio só de pensar que, daqui a pouco, vou ser enforcado. E eu nem sei o que vão fazer comigo depois de morto, porque ouvi Silvério cochichando que o delegado quer retalhar tudo, salgar e mandar jogar nas encruzilhadas, como um favor prestado a Virgílio Maroaga.
        É a morte se anunciando. Como dizia o meu pai, Ticá, quando a gente tem um pesadelo de que está morrendo, é porque vai morrer mesmo, e é preciso se acostumar depressa com a fatalidade.
        Mesmo tremendo todo, afirmo que nunca fui homem de sentir medo e fraquejar. Enfrentei e venci todos os perigos: atocaiei os meus inimigos onde e quando menos esperavam; peguei onça-pintada na ponta do terçado; me criei na mata e nas montanhas caçando, pescando e subindo em árvore; aprendi a urrar igual aos macacos guaribas, esse urro amedrontador que vem do fundo da floresta como fúria que vibra; e, finalmente, afrontei Virgílio Maroaga, o homem mais rico de todas estas terras que meus olhos conseguem enxergar, unicamente por um amor de perdição pela filha dele, Letícia, moça corajosa que abandonou uma vida de bem-aventuranças e comigo fugiu contrariando a vontade do pai.
        Daqui a pouco vou me encontrar com Letícia em alguma vereda do céu ou da terra. Enquanto isso, nesta circunstância aflitiva, fico me lembrando daqueles dias em que atravessamos a floresta, perseguidos por homens e cachorros sanguinários, sonhando com uma casinha na beira do rio e uma porção de filhos. Essa moça, dona dos meus mais sublimes sentimentos, eu a vi morrer de uma doença misteriosa sem nome.
        Eu me lembro bem daquela tarde na mata. Letícia reclamava de umas dores no estômago, delirava de febre. Me sentei com ela na beira do igarapé, rezando, atribulado. Meus olhos se enchem de lágrimas só de me lembrar. Eu rezava com extremo fervor, mas a reza era absorvida pela floresta e não cruzava o topo das árvores, não buscava o céu. Ah, que desespero: não muito longe, vinham os pistoleiros e os cachorros em nosso encalço. O tempo de fugir diminuía, estávamos acuados. E tudo piorou quando caiu a tempestade, enchendo a selva de brumas e melancolia. Letícia, com os olhos opacos, bem abraçada comigo, foi ficando molinha, desfalecendo devagar, sem mais me reconhecer. Eu lhe disse: ‘Sou eu, Tomé. Está me escutando? Diga que está me ouvindo’. Nada me respondeu. Imersos na cerração, ficamos entregues à vontade absoluta de Deus, à inconstância do destino, ao acaso das coisas. Depressa escureceu e depressa perdi, definitivamente, minha maior claridade da vida: foi-se Letícia, tão amolecida nos meus braços, mais parecendo estar dormindo. Olhei para cima, vi um pedacinho de céu da noite precoce através da mata, rezei fervorosamente, mas faltou Deus aparecer. Chorei lastimosamente: ‘Letícia, meu bem, aonde você foi? Tão apressada, nem me esperou. Que vazio vai deixar dentro de mim’.
        Quando estava para amanhecer, tive pensamentos ruins de morte. Ficar ali para sempre, ir ao encontro do meu amor. Mas, por cima das águas do igarapé, na cerração da manhã por nascer, o vulto de Letícia surgiu, subitamente, me sorrindo e me convencendo a viver. Aturdido, meio dormindo, meio acordado, gritei o nome dela. A aparição se desfez e me deixou amortecido, quase sem força para me levantar. Abri os olhos de vez, criei coragem e me levantei para enterrá-la. Meti o terçado na terra fofa e cavei. Falando deveras: chorei, em cima daquele túmulo improvisado, todas as lágrimas que um homem pode chorar quando perde a mulher do coração.”


=============== Continuação..............................................
(Se você sentiu interesse neste romance, pode adquiri-lo nas livrarias físicas e digitais ou na página da editora Novo Século na internet: Tomé Mayruna, 2ª edição, revisada, publicado, em 2016, pela editora Novo Século.) (Melhores preços: Amazon Brasil.)

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Ana Agar: Epifania de Encantados

                                                               *
     Eu estava de viagem marcada fazia semanas. Mas não podia dizer nada. Eu mesma escolhi combater na selva, entrar na guerrilha. Tínhamos sido derrotados na cidade, era preciso fazer a revolução no campo, nas matas, longe das forças do governo. Conquistar uma região bem longe do meio urbano e lá, talvez, fundar, dentro do país, outro país que pudesse ser reconhecido pelos governos simpatizantes da causa. Meus companheiros me esperavam. Eles se encontravam aqui, nestas matas e serras, havia vários anos. Muitos dos nossos tinham sido presos ou mortos. Outros, desistido da luta. Naquela noite, mãe, quando vi a comida na mesa e lhe disse que ia ao cinema, quase eu desisti. Sabia que talvez não fosse nunca mais voltar. Melhor seria ter ficado e concluído meu curso de Biologia, faltava tão pouco para terminar. E depois, como uma boa burguesa, eu casaria e constituiria família. A senhora e o papai teriam netos. Mas a revolução pulsava dentro de mim com mais força e convencimento. Se eu tivesse jantado em casa naquela noite, teria perdido as forças de sair para a luta.
            Quando eu saí de casa, percebi que estava sendo seguida. Tentei despistar os agentes do governo. Estavam em toda parte. Eu me hospedei na casa de uma amiga e, no dia seguinte, bem cedo, fui para a rodoviária. Peguei meu ônibus e viajei mais de uma semana, de cidade em cidade, até chegar a Pirilampo.
            Cheguei aqui com esta mesma roupa. As pessoas me olharam com estranheza, porque, naquela época, os que chegavam de longe geralmente eram amigos dos que estavam na mata, perseguidos pelas forças militares. E elas estavam amedrontadas, porque os militares as obrigavam a informar tudo que fugisse à normalidade. Eu me apresentei como parente do dono de um sítio e paguei a um sujeito chamado Raimundo, que trabalhava de mateiro. Ele me levou até o sítio, que estava bem abandonado. Não havia sinal de vida. Raimundo disse que os soldados tinham passado lá e arrebentado tudo. Alguns dos meus companheiros haviam morrido e outros, escapado para a mata. Raimundo apontou uma picada: “Eles fugiram por ali”.
            Fiquei desesperada, não sabia o que fazer. Pedi então ao Raimundo para me levar de volta a Pirilampo. Lá me hospedei na única pousada do lugar, tendo apresentado uma documentação falsa. Para me registrar, usei meu codinome, que era Selene. Meu dinheiro dava para ficar por alguns dias, não mais que uma ou duas semanas.
            Na metade da segunda semana, apareceu alguém me procurando na pousada. Tive medo. Pensei que fossem militares à paisana, que costumavam dar batidas para examinar a documentação dos hóspedes. Cheguei a pensar em fugir pela janela que dava para a mata, mas a dona da pousada me tranquilizou: “É o Raimundo, não se preocupe; ele disse que seus amigos voltaram e estão esperando no sítio”.
            Raimundo, que ajudava a guerrilha por gratidão (o parto da mulher dele fora feito por uma guerrilheira que tinha o curso de auxiliar de enfermagem), viera me procurar a mando dos meus camaradas, que estavam na mata. Ele ia levar comida, munição e remédios. Ia se encontrar com eles no sítio abandonado. Não havia perigo, ele repetiu isso várias vezes. Desconfiei um pouco dessa história, porque muitos habitantes locais estavam passando para o lado do governo, ou por dinheiro, ou por ameaça de morte, ou simplesmente tortura.
            Acompanhei o Raimundo. Não inteiramente confiante em suas palavras. Mesmo assim, esta era minha única oportunidade de me reencontrar com meus camaradas. Andamos um bom pedaço do dia. Tudo transcorreu sem novidade até chegar ao sítio, onde dez companheiros me esperavam. Sete rapazes e três moças. Cansados da vida na mata, doentes, mas perseverantes na luta revolucionária. Eu disse tchau ao Raimundo e segui com a guerrilha, floresta adentro. Fomos para o novo esconderijo, situado mais dentro da mata, mas a pouco tempo de caminhada até o rio. Lá havia construções rústicas e uma faixa desmatada de terreno para se plantar. Durante meses trabalhei firme na roça, pegando calo na mão, de tanto manusear enxada, terra e sementes. Cuidava da horta pela manhã e me adestrava em guerrilha durante a tarde – tiro ao alvo, marchas através da floresta, prática de emboscada, primeiros socorros. À noite, ia com as outras moças até uma escola do município. Vários moradores se alfabetizavam. Lá eu dava aulas não apenas de alfabetização, mas também de política. Muitas vezes, meu coração apertava, porque eu sentia que estava perdendo tempo. Aquela gente resignada não tinha espírito de luta, tampouco capacidade de sofrimento. Talvez fosse uma tremenda ilusão pensar que aquele povo pudesse se transformar num exército de verdade.
            As tropas do governo apertavam o cerco. Tivemos de planejar nossa retirada. Sairíamos do acampamento em dupla, dia sim, dia não. Cada dupla numa direção diferente. Depois de um mês nos reuniríamos num lugar combinado, o Lago das Pedrinhas, que é como chamávamos este lugar, por causa destas rochas com formato de gente e flor e destes seixos nas margens.
            Eu me evadi na companhia de um guerrilheiro chamado Bento. Fomos os primeiros a deixar o acampamento numa tarde de domingo. Seguimos para um casebre abandonado perto do rio, onde, semanas antes, havíamos construído um depósito subterrâneo de comida, munição e remédio. Ali permanecemos muitos dias.
            Bento começou a apresentar febre muito forte. Parecia recidiva de malária. Já não havia mais quinino em nosso depósito. Bento resolveu se arriscar e procurar ajuda no posto de saúde de Pirilampo, onde o enfermeiro Manoel costumava desviar medicamento para nós. “Vou me tratar, Selene, e me encontro com você e com os outros, daqui a duas semanas, no Lago das Pedrinhas”, me disse.
            Fiquei sozinha naquele casebre. Sem notícias. Durante muitos dias. Não sei quantos. Não havia calendários. Eu me guiava pelos dias que amanheciam e pelas noites que chegavam. Jamais poderia saber que as tropas do governo haviam atacado nosso acampamento. E que Bento havia sido preso antes mesmo de chegar a Pirilampo. Sem forças para resistir ao interrogatório, Bento contou tudo o que sabia. Um grupo de soldados veio para cá, em busca de mim, trazendo como guia o Raimundo, que tinha se bandeado para o lado deles.
            No meio de uma manhã de sol, eu vim me encontrar com Bento. Estava angustiada pela falta de notícias. O encontro no Lago das Pedrinhas havia sido a última coisa combinada. Cheguei aqui com um revólver na cintura, muito assustada, sem ver ninguém. Quase fui embora. Mas resolvi esperar um pouco. Sentei-me nas margens deste lago e esperei. Já ia me levantando para seguir meu caminho, por volta do meio-dia, quando avistei dois camponeses, cada um carregando terçado, as cabeças descobertas, o andar lento. Segurei o revólver com firmeza, me aprumei toda, mas afrouxei a guarda quando vi que um deles era o Raimundo. Repus o revólver na cintura, sem desconfiar de nada, nem mesmo quando o Raimundo levou a mão à cabeça, várias vezes, como se estivesse arrependido de me trair e quisesse me avisar da emboscada. Já era tarde para qualquer aviso. O homem que estava mais perto do Raimundo saiu correndo em minha direção, gritando: “Selene! Selene! Nós te pegamos!”; e, nisso, de repente, saíram da mata os outros que haviam montado o cerco. Todos com as armas prontas para atirar. Queriam a minha rendição. Acuada, fui recuando para o lago, com as mãos para o alto, só dizendo em completo pânico: “Minha Nossa Senhora! Minha Nossa Senhora! e agora, Minha Nossa Senhora?”. Apontei o revólver na direção deles e disparei. Mas não ouvi o som dos disparos de minha arma. Escutei somente os tiros de fuzil, muitos tiros, mas não senti nada no corpo, nenhuma ardência, nada mesmo, nem o gosto da morte. Meu corpo voou para trás, eu só senti a brisa morna no rosto ao cair no lago e afundar nestas águas. Enquanto eu desaparecia nestas funduras, eu escutava as vozes dos homens lá em cima – “vamos mergulhar, temos de levar o corpo como prova de que pegamos a Selene!” – e não sentia mais nada, salvo um entorpecimento incomum.
            Eu me lembrava, naqueles instantes, das histórias que o povo daqui contava sobre encantaria, e fiquei com medo de ser transformada em bicho do fundo do lago, uma cobra, um peixe, meu Deus do céu, então continuei a rezar, “minha Nossa Senhora, minha Nossa Senhora não me encante em bicho do fundo do lago”, e pouco a pouco as vozes dos homens foram sumindo, e também os meus medos desapareceram, e tudo enfim ficou bem quieto.
            Naquela hora, me lembrei de você, mamãe, de suas rezas, e sua voz chegou até a mim. Escutava suas palavras: “Nossa Senhora, proteja minha filha de qualquer mal, da morte cruel”. E acho que a senhora foi ouvida por Deus, mãe, e por isso Deus me transformou numa encantada da floresta, não permitindo que eu virasse bicho do fundo das águas. Sou como gente viva, apenas fiquei invisível. Ando pelas mesmas picadas, ajudo no que posso as famílias necessitadas, acalmo as almas penadas dos guerrilheiros que ainda se sentem vivos na mata e não aceitam que já morreram faz tempo.

            Foi isso o que me aconteceu.  Agora, só lhes peço que me perdoem por toda a tristeza que lhes causei. Eu só queria fazer uma revolução e criar o novo homem. Por isso inventei aquela história de ir ao cinema e faltei ao jantar que você preparou para mim, mamãe. Mas descobri que não há o novo homem. O homem é o mesmo que sempre foi e para sempre será – o tipo imperfeito, incoerente, mortal, apenas humano, isso que só pode ser o que é e não pode ser outra coisa. 
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Se você sentiu algum interesse pelo texto, pode conhecer o romance "Ana Agar: Epifania de Encantados".

(Continuação......Ana Agar: Epifania de Encantados, 3ª edição revisada e reescrita, publicado por editora Novo Século: www,novoseculo.com.br)

sábado, 11 de novembro de 2017

DIA SANTO

                                                      Capítulo 1 


       Nasci e vivi muito tempo na Amazônia. Criança de brincar nos beiradões dos rios lamacentos, de carregar as bacias de roupa de minha avó que labutava sobre balsas de sapopemba, de me esconder do meu pai me chamando para beber purgantes contra todo tipo de verme e cujo gosto intragável fui incapaz de esquecer. Aprendi a nadar nos igarapés, vivi em cortiços em minha primeira infância, ouvi muitas histórias de visagens e presumo ter visto fantasmas confabulando na solidão das calçadas. Eu e uma porção de crianças costumávamos passar as manhãs, enegrecidos pelo sol amazônico, a ver as embarcações passando ao largo, no rio Negro, sem preocupação com a vida ou a morte.
     Lembro-me desse tempo com certa tristeza. Deparo sempre com um menino magro à beira do rio, um espectro que insiste em cruzar os séculos na espera de um milagre. Ele tem uma lágrima permanentemente no rosto. Tem ainda a minha cara e, quando fala, usa também minha voz. Esse menino de olhar opaco vive no arco-íris por onde caminho para reencontrar os meus ancestrais.
     Vivi em remotos lugares onde se delineiam as nossas fronteiras setentrionais, comendo a poeira do seu verão quase eterno ou cheirando a umidade dos ventos quando vinham as chuvas do outro lado do rio. Fui uma criança indefesa e tímida, o próprio desamparo, a figura patética do menino ribeirinho chupando os dedos na beira do rio, a barriga graúda dos vermes, magricela da própria natureza humana, amedrontado diante dos estranhos. Apesar disso, é desse tempo na Amazônia que me vem a lembrança de liberdade, aquela vida de andar nu, vendo o sol nascer, tomando banho de chuva, dormindo com os pássaros. 
     Cresci na Amazônia e vi as suas cidades crescerem, as pessoas vindas de todas as partes chegarem, as florestas se encolherem sobre si próprias, até o seu provincianismo permutar-se por novos hábitos e adquirir todas as semelhanças do mundo além dos rios e da mata. Ainda hoje, muitos meninos amazônidas correm do purgante do pai e amam a procissão dos barcos carregando esperanças rio acima, rio abaixo. Pois lá, na imensidão do remoto, onde não é possível valer-se de mapas e onde tudo parece inexequível, encontra-se a mística vila chamada Maciriguei, cuja gente louva o Deus cristão e as divindades da floresta. Nenhum rosto é desconhecido entre os habitantes nem existem histórias alheias secretas. A história de Maciriguei parece uma fábula. Um dia jurei a mim mesmo que escreveria um livro sobre esse lugar, sua gente, seus amores, seus crimes, sua grandeza e sua miséria. Hoje cumpro a palavra empenhada.

                                                                 *

       Tudo começou faz muito tempo. Assim me disse a vó Paula, com seus olhos pequenos e fulminantes como pirilampos, nas noites em que nos sentávamos na varanda de casa, um para falar, outro para ouvir. Os olhos dela brilhavam na névoa da noite. A nossa conversa abafava o eco das lástimas das almas fora de casa. Sem nunca se cansar, ela me contava as histórias dos seringais onde nascera e crescera. As histórias de vivos e mortos tão impossíveis de esquecer. Eu a ouvia até sentir vontade de dormir. Ela me colocava na rede e cantava nos meus ouvidos uma modinha de criança, imitando um pássaro. Fiquei com essa voz melodiosa na memória. Talvez por isso o meu livro seja um pedaço da vida dessa filha de índios, da luz dos seus olhos dissolvendo a sombra de noites antigas e de sua voz que mais parecia o canto de um pintassilgo no cair da tarde.

                                                                 *

       Era uma vez, faz muito tempo, um espanhol chamado Francisco Orellana, que singrou, com suas caravelas, um grande e desconhecido rio, no século XVI, buscando terras novas para descobrir. Numa noite daquela época, ele ordenou o atracamento dos barcos o mais próximo das margens. Durante a madrugada, os marujos foram atacados por centenas de mulheres guerreiras, que haviam se aproximado, silenciosamente, em suas canoas, aproveitando-se da escuridão. A maior parte dos homens dormia e apenas uma sentinela sonolenta e embriagada se mantinha no seu posto de vigilância. Foi um ataque brutal e sangrento.
     No fim da batalha, Orellana, caído no assoalho da caravela e escondido entre os cadáveres, ainda as viu retornando à floresta. Elas levavam alguns homens vivos como troféus de guerra. Depois de contemplar aquelas guerreiras iluminadas pela lua, Orellana chamou-as de amazonas e deu ordens para que as velas fossem içadas imediatamente. Rezou pelos mortos e foi contar a história da batalha aos seus conterrâneos.

                                                                  *

       Infinidade de anos depois, na metade do século XIX, na mesma época em que a pequena cidade de Barra do Rio Negro mudou de nome para Manaus, concebeu-se no mundo o processo de vulcanização da borracha. Europeus, americanos, nordestinos e nativos, gente de todos os lugares, chegaram aos montes nos seringais e fizeram uma parte da história do Amazonas. Todos queriam enriquecer com a borracha. 
      Esse capítulo histórico do Amazonas durou algumas décadas, o suficiente para produzir cidades com feições europeias e germinar uma raça de índios morenos de olhos verdes e europeus branquelas de olhos amendoados. Nos confins dos seringais, durante a extração da borracha, homens e mulheres, falando entre si nos mais diversos idiomas, ainda arrumavam tempo para o amor e para fazer filhos.
      A tragédia veio em 1866 com a abertura dos portos amazônicos ao mundo. Dez anos depois, setenta mil sementes de seringueiras foram roubadas para o estrangeiro. Trinta anos mais tarde, as árvores asiáticas, das possessões inglesas na Malásia, deram uma seiva mais viscosa e de melhor qualidade do que a amazonense. Houve então uma premonição de que o sonho tinha chegado ao fim.
      Com a depressão de 1913, a quimera amazônica se reduziu a nada. Pareciam sem vida os imponentes prédios erguidos com o dinheiro da borracha. No calor do trópico, movia-se um povo abatido, empurrado para o esquecimento. Tentou-se ainda o desespero, e todos acorreram aos seringais para sugar inutilmente as árvores combalidas. Depois de muitas tentativas e centenas de madrugadas, os soldados da borracha renderam-se ao desastre. Morreu-se inutilmente de pânico e malária. Um lamento de infortúnio se espalhou pela floresta. Os seringueiros abandonavam as tralhas de trabalho e cruzavam a selva pedindo clemência às divindades da natureza. A avó Paula me disse: “Eu nunca esqueci o desespero daqueles homens e a choradeira das mulheres correndo atrás deles...”.
      Por muito tempo, o insignificante Amazonas sobreviveu graças à prática de uma agricultura de sustento. Ali eu estive, testemunhando as amarguras dos amigos e desafetos. Vi a grandeza de homens oferecendo a própria vida pela sobrevivência da família. Vi as disputas a faca entre eles quando queriam a mesma mulher. Vi a paixão e a indecência. Num daqueles dias, deparei com uma menina de dez anos de idade, que tinha por costume se oferecer aos estranhos recém-chegados: “Pelo dinheiro que o senhor puder me dar, posso lhe chupar o pau!”. 
     No relato da avó Paula, essa menina passava o dia inteiro ajoelhada diante dos bêbados. Fatigada, depois de ganhar algumas moedas, ela se levantava depressa e saía correndo no rumo do rio para lavar a boca e livrar-se do pecado. Eu perguntei muitas vezes à minha avó:
- O que aconteceu com ela?
- Parece que virou puta...
      Dessa menina, desses homens e dessas mulheres pertence a história que vou contar. Faço-o com a esperança de que essas peripécias sejam depois narradas, daqui a uma centena de anos, por avôs e avós rodeadas de netos.
     Façamos de conta que é noite e muitas estrelas cadentes riscam o céu. Tragam a cadeira de embalo para a calçada e me escutem. Uma frágil luz de lamparina dissolve a escuridão. Prestem atenção.

(Continuação......)

(Se este texto lhe despertou algum interesse, fica o convite para que conheça o meu romance Dia Santo, premiado pela Academia Brasileira de Letras, e publicado, em quarta edição, pela editora Novo Século.)


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Batalhas que matam crianças precocemente

Batalhas que matam crianças precocemente

1.

         Perderam o rumo prematuramente. Amargos e brutalizados. Correm de um lado para o outro nas calçadas. Desnorteados. Sem qualquer pensamento. Talvez igualmente sem sentimentos. Suas palavras possíveis: grunhidos, berros, rugidos. Gritam entre si, como se estivessem brincando de ser criança. Brincadeiras sem candura. Incomodam os passantes amedrontados. Meninos de rua. Deles se costuma dizer que são irrecuperáveis. Espectros do abandono, da desconfiança e do desprezo. Que perambulam pelas sombras como fantasmas encurralados, mendigando e assaltando, matando e morrendo por motivos triviais, dormindo e fazendo sexo, multiplicando-se em exércitos destinados à autodestruição, como se fossem metástases inevitáveis de um terrível infortúnio.   
         Acabo de abrir a janela. O sol costuma bater a manhã toda na parte dianteira do edifício. Mais um dia na semana. Hoje é segunda-feira. São quase onze horas, as calçadas já se encheram de gente, as pessoas entram e saem das lojas, os ônibus se deslocam por suas faixas privativas, os demais carros vão sendo retidos na lentidão do trânsito engarrafado. De longe, eu vejo os meninos perto da lanchonete, seus farrapos, seus canivetes e cacos de vidro, seus desamparos mesclados com ódio. Alvoroçados, berram num dialeto que mal consigo decifrar. Todos vão até a lanchonete, conseguem um pouco de café e pão com manteiga e prometem não incomodar os clientes, que se esquivam deles com movimentos bruscos e receosos; e, em troca do lanche, os meninos garantem que vão bagunçar bem longe. Alimentam-se feito bicho esfomeado. Depois, saciados, se afastam da lanchonete e vão se sentar sobre os papelões e jornais, debaixo da marquise onde costumam dormir. Assim começa efetivamente o dia deles. Que fazer, perguntam-se. Mendigar, assaltar, matar, morrer. Conseguir dinheiro pra comprar droga. Ficar bem doido, injetar adrenalina no cérebro e na alma, tomar coragem para enfrentar seus desatinos. Desonra. Perspectiva zero de felicidade.   

2.

Quem dorme em calçada só pode fazê-lo com muito cuidado, jamais com os olhos plenamente fechados, mas sim entreabertos e vigilantes, atentos como os olhos de um felino. O sentido da audição funciona como um radar permanente, detectando os ruídos estranhos, e tudo isso perturba bastante o sono que costuma ser curto. Sono pouco reparador. O cansaço, muito cansaço, que nunca se esgota. Noite após noite, esse modo de dormir equivale a uma brotação incessante de ódio. Assim dormem esses meninos perdidos e, talvez por esse motivo, é que eles se levantam apoderados por uma indescritível avidez de sangue e morte. E assim acontece a vida inteira, que é tão breve para eles.
Os meninos de rua parecem deliberar entre si e se levantam subitamente. Alvoroço na calçada: misturam-se entre as pessoas temerosas e apressadas, abrem uma trilha na multidão, divertem-se com o medo alheio, correm em pequenos grupos ruidosos, como se fossem tanques de guerra em blitzkrieg. Eles vão geralmente para a porta da igreja, sabendo da vulnerabilidade dos velhos e das beatas bem vestidas, gente que, embora viciada em sacristia e missa, vacila na fé, tem cagaço exagerado. Gente fraca que reza demais e nunca vence o medo insuperável dos demônios. Que não resiste a uma noite sequer debaixo da marquise ou da chuva. Que morre de medo tanto dos perigos reais quanto dos imaginários. Que acha que é tarefa de Deus consertar o mundo desmantelado.
Quando começa a fazer mais calor, no auge da manhã, as pequenas criaturas atravessam a rua defronte à igreja e cruzam a praça até o chafariz. Jogam-se na água fria. Brincam de infância. Alguns até tiram o calção. Ninguém se importa com meninos nus e brincalhões. Eles brincam até se entediarem. E o tédio os reconduz às ruas confusas, onde, com a raiva dos demônios, arrancam cordões de ouro e relógios chiques dos transeuntes, e onde pintam o sete, como se fossem os donos do mundo. Os guardas municipais chegam para restabelecer a ordem. Os meninos irados zombam das autoridades e fogem pelo meio do trânsito, e os guardas os perseguem, e logo se dá uma guerra de cassetetes contra canivetes amolados. Escuta-se a sirene da polícia. Chegam os reforços policiais, e os meninos se metem por entre os carros; alguns são atropelados nas faixas privativas dos ônibus, outros escapam através do engarrafamento.     
            
             Um desses meninos comanda este exército dizimado, todos os dias, 
em batalhas que matam crianças precocemente. Impôs-se diante dos outros 
graças à sua astúcia e porque parece dispor do talento de mandar e ser 
obedecido. Ignora-se se ele se chama João ou Francisco, Jesus ou Belzebu; 
sabe-se apenas seu apelido de guerra – Fúria. Um combatente que jamais morre, mesmo quando é alvejado em público, mesmo quando seu sangue se mistura com o asfalto, mesmo quando o levam como indigente para o cemitério. Três dias depois da morte, glorificado nos pântanos por um Espírito protetor que jamais o abandona, retorna do escuro e rebrota nos esgotos que correm a céu aberto. 
. (Continua...)

(Se o texto despertou seu interesse, você pode continuar sua leitura. Adquira Vida Birrenta, de Humberto B. Leal, publicado pela Editora Novo Século.)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

As livrarias e os escritores

                    1
     Sempre é bom visitar livrarias. Dá-se ali um impacto no espírito. Fica-se sabendo do que pensa o imenso país. Mesmo que, às vezes, as livrarias sejam pequenas, modestas. Lá dentro vigora um mundo que outrora era exclusivo da literatura. Hoje os livros se misturam com os eletrônicos, os elementos de papelaria, até com as coisas úteis para o lar. Há os que nelas entram movidos por paixão livresca. Há os que vão conduzidos pelo tédio. Há os que procuram o seu silêncio de catedral. Há muitos motivos para se ir a uma livraria.
     Uma imensa maioria da multidão apressada não vê razão alguma para entrar em livrarias. Então elas, as livrarias, se tornam um vasto deserto do tamanho do imenso país. Tudo desertificado. Os livreiros e seus funcionários se preocupam com o que vai ser amanhã. As portas podem fechar.

               2
     Livrarias brasileiras produzem impactos no espírito de escritores. Não nos espíritos dos escritores estrangeiros. Que chegam em ondas, traduzidos e retraduzidos, para o riso dos livreiros e seus funcionários, para que amanhã as portas não fechem. Todos sabem que as hordas nativas apreciam com louvor aquilo que se faz lá fora. Nada de folclore brasileiro, mas sim os vampiros e lobisomens elegantes da Europa. Nada dos nossos dramas cotidianos, que isso a televisão conta melhor. Nada dos nossos pensamentos, que não sabemos pensar. Já se vê a cara desdenhosa de quem indaga e decide: "Literatura nacional? Nem pensar".

               3
     Que impacto de espírito é esse que se dá nos escritores brasileiros? Sentimento de frustração?
     Muitos dizem que não vale mais a pena escrever. Vão pintar aquarelas, montar instalações com vídeos nos centros culturais, fazer arte de rua ou qualquer coisa. Mas será que se justifica o frustrar-se do escritor?  Definitivamente, não. Por que, então, um escritor se frustra? Porque se esquece que o essencial de escrever é o escrever em si mesmo. Escrever por necessidade vital, assim como, para o navegante, viver não é preciso, mas navegar sim.
     Apenas se justifica no escritor um sentimento mais intenso, mais abissal. O de sentir que falhou ao escrever a sua obra. O de constatar que a literatura não se pôs dentro dele, como um som de abismo, e que as palavras vindas à superfície não passavam de simulacros de linguística. Não havia gênese de mundo. Não se deixou clarear a literatura que só aparece quando o escritor está aberto ao seu apelo. Isso sim dói genuinamente.
     A outra dor narcísica é café pequeno. É pequenez de espírito se frustrar por falta de reconhecimento do público. As multidões não merecem a dor de um artista da palavra. Haverá um dia em que as livrarias, mesmo as mais simples e provincianas, deixarão de ser o grande deserto em que se transformaram por causa das multidões robotizadas.
     Enquanto isso, que cada escritor faça o que lhe cabe: escrever. Como o faz um artesão de mundo.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Ciclista do Vale das Videiras

 No friorento inverno deste ano, a Festa do Colono em Petrópolis se expandiu por várias partes da cidade. Vieram muitos turistas. Tudo correu bem, sem grandes atropelos. Até o trânsito funcionou mais ou menos. Pois eu andei pela cidade pensando numa pessoa ausente que, tantas vezes, esteve por trás do preparo dessa grande festa petropolitana. Como funcionário da Prefeitura, cuidou de vários eventos culturais, tratando da logística. Falo do Eduardo Teixeira Soares, que perdeu a última batalha para as células doidas do câncer pouco tempo antes da festa. Bebi um chope por ele. Reverenciei sua ausência física. No fundo, ele continuava presente na cidade, como ainda estão por aqui, como lembranças ou almas, todos os colonos que vieram para cá nos séculos XIX e XX.
     Quatro anos atrás, ele vencera as células doidas. Estava tão magrinho naquela época, ficou tão vulnerável às infecções de qualquer natureza. Mas ele amava a vida. E tinha um amor especial, quase incompreensível, misterioso, profundo, intenso por Nossa Senhora. Rezava com fervor. Para ele, a Mãe de Cristo levaria para longe aquelas células desatinadas. E assim aconteceu. Pelo menos por algum tempo.
     Ele se fortaleceu, readquiriu o vigor dos músculos, pôs sua bicicleta debaixo do sol e se prontificou a viver o sagrado que está nas coisas visíveis e invisíveis do mundo, naquilo que aparece e naquilo que permanece retraído, naquilo que se manifesta e naquilo que se põe na sombra, naquilo que é uma grande gargalhada e naquilo que é a mais comovente timidez.
    Via-se o Eduardo aos domingos no Vale das Videiras. Forte, esguio, de bem com a vida. Seu percurso predileto era o acidentado caminho entre o Vale das Videiras e Miguel Pereira. Quem conhece aquelas subidas e descidas, pendentes e ascendentes, sabe do que estou dizendo. Uma mente sã no corpo forte, como se fosse um daqueles gregos antigos a levar a mensagem de uma batalha em maratonas memoráveis.
     Ele gostava da vida urbana. Sonhava com um belo carro, algumas comodidades mais. Mas, no fundo, continuava a ser o menino criado na roça, acostumado às aventuras entre os bois e os rios de Além Paraíba. Aquele que brincava com as demais crianças descendo o morro sentado sobre folhas de bananeira, num esqui de camponês divertido. A criançada ria a valer. Mas ele, que vislumbrava a vida na cidade, costumava subir até a parte mais alta das elevações só para imaginar-se numa viagem por aquelas estradas poeirentas no rumo de Petrópolis. E certo dia, todos vieram para cá. A família toda
     Ano passado as células doidas retornaram. Ele ficou desnorteado. Correu para Aparecida e conversou com Nossa Senhora. Mas a Mãe de Cristo e de todos nós agora o queria para si em seu regaço. Diante do silêncio na Basílica, ele voltou para Petrópolis. Não em desespero.Mas aproveitando tudo o que ainda lhe restava para viver. Emagreceu. Quase não comia mais. Até dormir ficou difícil, o corpo mais ossudo, tudo lhe feria as carnes poucas. Mesmo assim, comemorou o Ano Novo no Rio de Janeiro, levado que foi para lá por seus familiares. Viu os fogos de artifícios nos céus e sabia que talvez fosse a última vez.
   E foi assim que aconteceu. As forças se esgotaram, toda a vitalidade desapareceu, ele caiu no silêncio das coisas eternas. O resto foi o de sempre. O velório. O pranto dos familiares e dos amigos. A saudade antecipada. O vazio irreparável. Seu último pedido: a cremação. E que depois as cinzas fossem lançadas em parte no mar do Rio de Janeiro muito amado, em parte na Vista Chinesa.
    Será que o Eduardo desapareceu mesmo? Sei não. Cada vez que vou ao Vale das Videiras e pego o caminho que vai dar em Paty de Alferes e em Miguel Pereira, sou capaz de ver aquele ciclista valoroso desafiando as pendentes e vibrando com a vida. Ele é agora mais que uma lembrança. Ele se tornou uma alma feliz nos braços de sua amada Nossa Senhora. Se não for assim, estou vendo fantasmas.
    Mas quem disse que não há felicidade entre os bons fantasmas? Pois ele pega onda no mar do Rio, sobe e desce da Vista Chinesa e, quando chega o domingo, vem correndo no vento para as montanhas de Petrópolis. Em sua bicicleta sai por aí louvando a vida. Ele é o cara!