sábado, 11 de novembro de 2017

DIA SANTO

                                                      Capítulo 1 


       Nasci e vivi muito tempo na Amazônia. Criança de brincar nos beiradões dos rios lamacentos, de carregar as bacias de roupa de minha avó que labutava sobre balsas de sapopemba, de me esconder do meu pai me chamando para beber purgantes contra todo tipo de verme e cujo gosto intragável fui incapaz de esquecer. Aprendi a nadar nos igarapés, vivi em cortiços em minha primeira infância, ouvi muitas histórias de visagens e presumo ter visto fantasmas confabulando na solidão das calçadas. Eu e uma porção de crianças costumávamos passar as manhãs, enegrecidos pelo sol amazônico, a ver as embarcações passando ao largo, no rio Negro, sem preocupação com a vida ou a morte.
     Lembro-me desse tempo com certa tristeza. Deparo sempre com um menino magro à beira do rio, um espectro que insiste em cruzar os séculos na espera de um milagre. Ele tem uma lágrima permanentemente no rosto. Tem ainda a minha cara e, quando fala, usa também minha voz. Esse menino de olhar opaco vive no arco-íris por onde caminho para reencontrar os meus ancestrais.
     Vivi em remotos lugares onde se delineiam as nossas fronteiras setentrionais, comendo a poeira do seu verão quase eterno ou cheirando a umidade dos ventos quando vinham as chuvas do outro lado do rio. Fui uma criança indefesa e tímida, o próprio desamparo, a figura patética do menino ribeirinho chupando os dedos na beira do rio, a barriga graúda dos vermes, magricela da própria natureza humana, amedrontado diante dos estranhos. Apesar disso, é desse tempo na Amazônia que me vem a lembrança de liberdade, aquela vida de andar nu, vendo o sol nascer, tomando banho de chuva, dormindo com os pássaros. 
     Cresci na Amazônia e vi as suas cidades crescerem, as pessoas vindas de todas as partes chegarem, as florestas se encolherem sobre si próprias, até o seu provincianismo permutar-se por novos hábitos e adquirir todas as semelhanças do mundo além dos rios e da mata. Ainda hoje, muitos meninos amazônidas correm do purgante do pai e amam a procissão dos barcos carregando esperanças rio acima, rio abaixo. Pois lá, na imensidão do remoto, onde não é possível valer-se de mapas e onde tudo parece inexequível, encontra-se a mística vila chamada Maciriguei, cuja gente louva o Deus cristão e as divindades da floresta. Nenhum rosto é desconhecido entre os habitantes nem existem histórias alheias secretas. A história de Maciriguei parece uma fábula. Um dia jurei a mim mesmo que escreveria um livro sobre esse lugar, sua gente, seus amores, seus crimes, sua grandeza e sua miséria. Hoje cumpro a palavra empenhada.

                                                                 *

       Tudo começou faz muito tempo. Assim me disse a vó Paula, com seus olhos pequenos e fulminantes como pirilampos, nas noites em que nos sentávamos na varanda de casa, um para falar, outro para ouvir. Os olhos dela brilhavam na névoa da noite. A nossa conversa abafava o eco das lástimas das almas fora de casa. Sem nunca se cansar, ela me contava as histórias dos seringais onde nascera e crescera. As histórias de vivos e mortos tão impossíveis de esquecer. Eu a ouvia até sentir vontade de dormir. Ela me colocava na rede e cantava nos meus ouvidos uma modinha de criança, imitando um pássaro. Fiquei com essa voz melodiosa na memória. Talvez por isso o meu livro seja um pedaço da vida dessa filha de índios, da luz dos seus olhos dissolvendo a sombra de noites antigas e de sua voz que mais parecia o canto de um pintassilgo no cair da tarde.

                                                                 *

       Era uma vez, faz muito tempo, um espanhol chamado Francisco Orellana, que singrou, com suas caravelas, um grande e desconhecido rio, no século XVI, buscando terras novas para descobrir. Numa noite daquela época, ele ordenou o atracamento dos barcos o mais próximo das margens. Durante a madrugada, os marujos foram atacados por centenas de mulheres guerreiras, que haviam se aproximado, silenciosamente, em suas canoas, aproveitando-se da escuridão. A maior parte dos homens dormia e apenas uma sentinela sonolenta e embriagada se mantinha no seu posto de vigilância. Foi um ataque brutal e sangrento.
     No fim da batalha, Orellana, caído no assoalho da caravela e escondido entre os cadáveres, ainda as viu retornando à floresta. Elas levavam alguns homens vivos como troféus de guerra. Depois de contemplar aquelas guerreiras iluminadas pela lua, Orellana chamou-as de amazonas e deu ordens para que as velas fossem içadas imediatamente. Rezou pelos mortos e foi contar a história da batalha aos seus conterrâneos.

                                                                  *

       Infinidade de anos depois, na metade do século XIX, na mesma época em que a pequena cidade de Barra do Rio Negro mudou de nome para Manaus, concebeu-se no mundo o processo de vulcanização da borracha. Europeus, americanos, nordestinos e nativos, gente de todos os lugares, chegaram aos montes nos seringais e fizeram uma parte da história do Amazonas. Todos queriam enriquecer com a borracha. 
      Esse capítulo histórico do Amazonas durou algumas décadas, o suficiente para produzir cidades com feições europeias e germinar uma raça de índios morenos de olhos verdes e europeus branquelas de olhos amendoados. Nos confins dos seringais, durante a extração da borracha, homens e mulheres, falando entre si nos mais diversos idiomas, ainda arrumavam tempo para o amor e para fazer filhos.
      A tragédia veio em 1866 com a abertura dos portos amazônicos ao mundo. Dez anos depois, setenta mil sementes de seringueiras foram roubadas para o estrangeiro. Trinta anos mais tarde, as árvores asiáticas, das possessões inglesas na Malásia, deram uma seiva mais viscosa e de melhor qualidade do que a amazonense. Houve então uma premonição de que o sonho tinha chegado ao fim.
      Com a depressão de 1913, a quimera amazônica se reduziu a nada. Pareciam sem vida os imponentes prédios erguidos com o dinheiro da borracha. No calor do trópico, movia-se um povo abatido, empurrado para o esquecimento. Tentou-se ainda o desespero, e todos acorreram aos seringais para sugar inutilmente as árvores combalidas. Depois de muitas tentativas e centenas de madrugadas, os soldados da borracha renderam-se ao desastre. Morreu-se inutilmente de pânico e malária. Um lamento de infortúnio se espalhou pela floresta. Os seringueiros abandonavam as tralhas de trabalho e cruzavam a selva pedindo clemência às divindades da natureza. A avó Paula me disse: “Eu nunca esqueci o desespero daqueles homens e a choradeira das mulheres correndo atrás deles...”.
      Por muito tempo, o insignificante Amazonas sobreviveu graças à prática de uma agricultura de sustento. Ali eu estive, testemunhando as amarguras dos amigos e desafetos. Vi a grandeza de homens oferecendo a própria vida pela sobrevivência da família. Vi as disputas a faca entre eles quando queriam a mesma mulher. Vi a paixão e a indecência. Num daqueles dias, deparei com uma menina de dez anos de idade, que tinha por costume se oferecer aos estranhos recém-chegados: “Pelo dinheiro que o senhor puder me dar, posso lhe chupar o pau!”. 
     No relato da avó Paula, essa menina passava o dia inteiro ajoelhada diante dos bêbados. Fatigada, depois de ganhar algumas moedas, ela se levantava depressa e saía correndo no rumo do rio para lavar a boca e livrar-se do pecado. Eu perguntei muitas vezes à minha avó:
- O que aconteceu com ela?
- Parece que virou puta...
      Dessa menina, desses homens e dessas mulheres pertence a história que vou contar. Faço-o com a esperança de que essas peripécias sejam depois narradas, daqui a uma centena de anos, por avôs e avós rodeadas de netos.
     Façamos de conta que é noite e muitas estrelas cadentes riscam o céu. Tragam a cadeira de embalo para a calçada e me escutem. Uma frágil luz de lamparina dissolve a escuridão. Prestem atenção.

(Continuação......)

(Se este texto lhe despertou algum interesse, fica o convite para que conheça o meu romance Dia Santo, premiado pela Academia Brasileira de Letras, e publicado, em quarta edição, pela editora Novo Século.)


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Batalhas que matam crianças precocemente

Batalhas que matam crianças precocemente

1.

         Perderam o rumo prematuramente. Amargos e brutalizados. Correm de um lado para o outro nas calçadas. Desnorteados. Sem qualquer pensamento. Talvez igualmente sem sentimentos. Suas palavras possíveis: grunhidos, berros, rugidos. Gritam entre si, como se estivessem brincando de ser criança. Brincadeiras sem candura. Incomodam os passantes amedrontados. Meninos de rua. Deles se costuma dizer que são irrecuperáveis. Espectros do abandono, da desconfiança e do desprezo. Que perambulam pelas sombras como fantasmas encurralados, mendigando e assaltando, matando e morrendo por motivos triviais, dormindo e fazendo sexo, multiplicando-se em exércitos destinados à autodestruição, como se fossem metástases inevitáveis de um terrível infortúnio.   
         Acabo de abrir a janela. O sol costuma bater a manhã toda na parte dianteira do edifício. Mais um dia na semana. Hoje é segunda-feira. São quase onze horas, as calçadas já se encheram de gente, as pessoas entram e saem das lojas, os ônibus se deslocam por suas faixas privativas, os demais carros vão sendo retidos na lentidão do trânsito engarrafado. De longe, eu vejo os meninos perto da lanchonete, seus farrapos, seus canivetes e cacos de vidro, seus desamparos mesclados com ódio. Alvoroçados, berram num dialeto que mal consigo decifrar. Todos vão até a lanchonete, conseguem um pouco de café e pão com manteiga e prometem não incomodar os clientes, que se esquivam deles com movimentos bruscos e receosos; e, em troca do lanche, os meninos garantem que vão bagunçar bem longe. Alimentam-se feito bicho esfomeado. Depois, saciados, se afastam da lanchonete e vão se sentar sobre os papelões e jornais, debaixo da marquise onde costumam dormir. Assim começa efetivamente o dia deles. Que fazer, perguntam-se. Mendigar, assaltar, matar, morrer. Conseguir dinheiro pra comprar droga. Ficar bem doido, injetar adrenalina no cérebro e na alma, tomar coragem para enfrentar seus desatinos. Desonra. Perspectiva zero de felicidade.   

2.

Quem dorme em calçada só pode fazê-lo com muito cuidado, jamais com os olhos plenamente fechados, mas sim entreabertos e vigilantes, atentos como os olhos de um felino. O sentido da audição funciona como um radar permanente, detectando os ruídos estranhos, e tudo isso perturba bastante o sono que costuma ser curto. Sono pouco reparador. O cansaço, muito cansaço, que nunca se esgota. Noite após noite, esse modo de dormir equivale a uma brotação incessante de ódio. Assim dormem esses meninos perdidos e, talvez por esse motivo, é que eles se levantam apoderados por uma indescritível avidez de sangue e morte. E assim acontece a vida inteira, que é tão breve para eles.
Os meninos de rua parecem deliberar entre si e se levantam subitamente. Alvoroço na calçada: misturam-se entre as pessoas temerosas e apressadas, abrem uma trilha na multidão, divertem-se com o medo alheio, correm em pequenos grupos ruidosos, como se fossem tanques de guerra em blitzkrieg. Eles vão geralmente para a porta da igreja, sabendo da vulnerabilidade dos velhos e das beatas bem vestidas, gente que, embora viciada em sacristia e missa, vacila na fé, tem cagaço exagerado. Gente fraca que reza demais e nunca vence o medo insuperável dos demônios. Que não resiste a uma noite sequer debaixo da marquise ou da chuva. Que morre de medo tanto dos perigos reais quanto dos imaginários. Que acha que é tarefa de Deus consertar o mundo desmantelado.
Quando começa a fazer mais calor, no auge da manhã, as pequenas criaturas atravessam a rua defronte à igreja e cruzam a praça até o chafariz. Jogam-se na água fria. Brincam de infância. Alguns até tiram o calção. Ninguém se importa com meninos nus e brincalhões. Eles brincam até se entediarem. E o tédio os reconduz às ruas confusas, onde, com a raiva dos demônios, arrancam cordões de ouro e relógios chiques dos transeuntes, e onde pintam o sete, como se fossem os donos do mundo. Os guardas municipais chegam para restabelecer a ordem. Os meninos irados zombam das autoridades e fogem pelo meio do trânsito, e os guardas os perseguem, e logo se dá uma guerra de cassetetes contra canivetes amolados. Escuta-se a sirene da polícia. Chegam os reforços policiais, e os meninos se metem por entre os carros; alguns são atropelados nas faixas privativas dos ônibus, outros escapam através do engarrafamento.     
            
             Um desses meninos comanda este exército dizimado, todos os dias, 
em batalhas que matam crianças precocemente. Impôs-se diante dos outros 
graças à sua astúcia e porque parece dispor do talento de mandar e ser 
obedecido. Ignora-se se ele se chama João ou Francisco, Jesus ou Belzebu; 
sabe-se apenas seu apelido de guerra – Fúria. Um combatente que jamais morre, mesmo quando é alvejado em público, mesmo quando seu sangue se mistura com o asfalto, mesmo quando o levam como indigente para o cemitério. Três dias depois da morte, glorificado nos pântanos por um Espírito protetor que jamais o abandona, retorna do escuro e rebrota nos esgotos que correm a céu aberto. 
. (Continua...)

(Se o texto despertou seu interesse, você pode continuar sua leitura. Adquira Vida Birrenta, de Humberto B. Leal, publicado pela Editora Novo Século.)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

As livrarias e os escritores

                    1
     Sempre é bom visitar livrarias. Dá-se ali um impacto no espírito. Fica-se sabendo do que pensa o imenso país. Mesmo que, às vezes, as livrarias sejam pequenas, modestas. Lá dentro vigora um mundo que outrora era exclusivo da literatura. Hoje os livros se misturam com os eletrônicos, os elementos de papelaria, até com as coisas úteis para o lar. Há os que nelas entram movidos por paixão livresca. Há os que vão conduzidos pelo tédio. Há os que procuram o seu silêncio de catedral. Há muitos motivos para se ir a uma livraria.
     Uma imensa maioria da multidão apressada não vê razão alguma para entrar em livrarias. Então elas, as livrarias, se tornam um vasto deserto do tamanho do imenso país. Tudo desertificado. Os livreiros e seus funcionários se preocupam com o que vai ser amanhã. As portas podem fechar.

               2
     Livrarias brasileiras produzem impactos no espírito de escritores. Não nos espíritos dos escritores estrangeiros. Que chegam em ondas, traduzidos e retraduzidos, para o riso dos livreiros e seus funcionários, para que amanhã as portas não fechem. Todos sabem que as hordas nativas apreciam com louvor aquilo que se faz lá fora. Nada de folclore brasileiro, mas sim os vampiros e lobisomens elegantes da Europa. Nada dos nossos dramas cotidianos, que isso a televisão conta melhor. Nada dos nossos pensamentos, que não sabemos pensar. Já se vê a cara desdenhosa de quem indaga e decide: "Literatura nacional? Nem pensar".

               3
     Que impacto de espírito é esse que se dá nos escritores brasileiros? Sentimento de frustração?
     Muitos dizem que não vale mais a pena escrever. Vão pintar aquarelas, montar instalações com vídeos nos centros culturais, fazer arte de rua ou qualquer coisa. Mas será que se justifica o frustrar-se do escritor?  Definitivamente, não. Por que, então, um escritor se frustra? Porque se esquece que o essencial de escrever é o escrever em si mesmo. Escrever por necessidade vital, assim como, para o navegante, viver não é preciso, mas navegar sim.
     Apenas se justifica no escritor um sentimento mais intenso, mais abissal. O de sentir que falhou ao escrever a sua obra. O de constatar que a literatura não se pôs dentro dele, como um som de abismo, e que as palavras vindas à superfície não passavam de simulacros de linguística. Não havia gênese de mundo. Não se deixou clarear a literatura que só aparece quando o escritor está aberto ao seu apelo. Isso sim dói genuinamente.
     A outra dor narcísica é café pequeno. É pequenez de espírito se frustrar por falta de reconhecimento do público. As multidões não merecem a dor de um artista da palavra. Haverá um dia em que as livrarias, mesmo as mais simples e provincianas, deixarão de ser o grande deserto em que se transformaram por causa das multidões robotizadas.
     Enquanto isso, que cada escritor faça o que lhe cabe: escrever. Como o faz um artesão de mundo.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

O Ciclista do Vale das Videiras

 No friorento inverno deste ano, a Festa do Colono em Petrópolis se expandiu por várias partes da cidade. Vieram muitos turistas. Tudo correu bem, sem grandes atropelos. Até o trânsito funcionou mais ou menos. Pois eu andei pela cidade pensando numa pessoa ausente que, tantas vezes, esteve por trás do preparo dessa grande festa petropolitana. Como funcionário da Prefeitura, cuidou de vários eventos culturais, tratando da logística. Falo do Eduardo Teixeira Soares, que perdeu a última batalha para as células doidas do câncer pouco tempo antes da festa. Bebi um chope por ele. Reverenciei sua ausência física. No fundo, ele continuava presente na cidade, como ainda estão por aqui, como lembranças ou almas, todos os colonos que vieram para cá nos séculos XIX e XX.
     Quatro anos atrás, ele vencera as células doidas. Estava tão magrinho naquela época, ficou tão vulnerável às infecções de qualquer natureza. Mas ele amava a vida. E tinha um amor especial, quase incompreensível, misterioso, profundo, intenso por Nossa Senhora. Rezava com fervor. Para ele, a Mãe de Cristo levaria para longe aquelas células desatinadas. E assim aconteceu. Pelo menos por algum tempo.
     Ele se fortaleceu, readquiriu o vigor dos músculos, pôs sua bicicleta debaixo do sol e se prontificou a viver o sagrado que está nas coisas visíveis e invisíveis do mundo, naquilo que aparece e naquilo que permanece retraído, naquilo que se manifesta e naquilo que se põe na sombra, naquilo que é uma grande gargalhada e naquilo que é a mais comovente timidez.
    Via-se o Eduardo aos domingos no Vale das Videiras. Forte, esguio, de bem com a vida. Seu percurso predileto era o acidentado caminho entre o Vale das Videiras e Miguel Pereira. Quem conhece aquelas subidas e descidas, pendentes e ascendentes, sabe do que estou dizendo. Uma mente sã no corpo forte, como se fosse um daqueles gregos antigos a levar a mensagem de uma batalha em maratonas memoráveis.
     Ele gostava da vida urbana. Sonhava com um belo carro, algumas comodidades mais. Mas, no fundo, continuava a ser o menino criado na roça, acostumado às aventuras entre os bois e os rios de Além Paraíba. Aquele que brincava com as demais crianças descendo o morro sentado sobre folhas de bananeira, num esqui de camponês divertido. A criançada ria a valer. Mas ele, que vislumbrava a vida na cidade, costumava subir até a parte mais alta das elevações só para imaginar-se numa viagem por aquelas estradas poeirentas no rumo de Petrópolis. E certo dia, todos vieram para cá. A família toda
     Ano passado as células doidas retornaram. Ele ficou desnorteado. Correu para Aparecida e conversou com Nossa Senhora. Mas a Mãe de Cristo e de todos nós agora o queria para si em seu regaço. Diante do silêncio na Basílica, ele voltou para Petrópolis. Não em desespero.Mas aproveitando tudo o que ainda lhe restava para viver. Emagreceu. Quase não comia mais. Até dormir ficou difícil, o corpo mais ossudo, tudo lhe feria as carnes poucas. Mesmo assim, comemorou o Ano Novo no Rio de Janeiro, levado que foi para lá por seus familiares. Viu os fogos de artifícios nos céus e sabia que talvez fosse a última vez.
   E foi assim que aconteceu. As forças se esgotaram, toda a vitalidade desapareceu, ele caiu no silêncio das coisas eternas. O resto foi o de sempre. O velório. O pranto dos familiares e dos amigos. A saudade antecipada. O vazio irreparável. Seu último pedido: a cremação. E que depois as cinzas fossem lançadas em parte no mar do Rio de Janeiro muito amado, em parte na Vista Chinesa.
    Será que o Eduardo desapareceu mesmo? Sei não. Cada vez que vou ao Vale das Videiras e pego o caminho que vai dar em Paty de Alferes e em Miguel Pereira, sou capaz de ver aquele ciclista valoroso desafiando as pendentes e vibrando com a vida. Ele é agora mais que uma lembrança. Ele se tornou uma alma feliz nos braços de sua amada Nossa Senhora. Se não for assim, estou vendo fantasmas.
    Mas quem disse que não há felicidade entre os bons fantasmas? Pois ele pega onda no mar do Rio, sobe e desce da Vista Chinesa e, quando chega o domingo, vem correndo no vento para as montanhas de Petrópolis. Em sua bicicleta sai por aí louvando a vida. Ele é o cara!
 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O menino pintor

     No último final de semana, uma postagem no Facebook me impressionou bastante. A foto de um menino de quatro anos em meio a pincéis, tintas, rabiscados, traços coloridos, a vida emergindo para a superfície do mundo na linguagem das cores. Senti nele o talento do artista. Ainda uma criança tenra, uma criatura inocente, mas sendo, a olhos vistos, o lugar e o instante em que a vida se põe como obra de arte. Fiquei deveras comovido. Admirado.
     Esse menino vai crescer, eu pensei. E seguramente vai aprender técnicas de pintura e muitas outras manifestações da arte. Vai ler muitos livros. Vai assistir a muitos filmes. Visitará muitas exposições nos museus e centros culturais. Herdará em si mesmo, como acréscimo ao seu talento pessoal, uma tradição dos que vieram antes dele. Isso será muito bom. Mas também poderá ser soterrado por infinidade de teorias artísticas, crenças e convicções de toda natureza, doutrinações ideológicas, preconceitos e conceitos, experiências áridas que nos deixam atados sob os escombros da existência. Isso será ruim.
     Tomara que, se isso de ruim também vier a acontecer mesmo, não se perca nele essa inocência que ficou registrada na postagem do Facebook. Sim, é verdade que, em sentido nietzschiano, nosso espírito tem um momento de ser camelo e carregar a vida como se esta fosse um fardo irremediável; que também agimos como um leão quando precisamos destruir as estruturas de valores adoentadas e petrificadas; mas, sobretudo, junto a tudo isso, nunca podemos deixar que se dissipe a criança inocente que há em cada um de nós. É somente essa candura que nos permite criar o novo.
    Nem sei se vou viver o suficiente para comprovar minhas previsões sobre o menino pintor. Mas ele incutiu em mim uma profunda esperança na arte. Que sejamos, por meio da cultura, capazes de reverter nossos dramas mais doidos em simples vida que surge diariamente com o despontar do sol.
Que esse menino pintor seja a via por onde a arte chega para nos dar a imensa graça da beleza.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

O homem ao deus-dará II, Soljenitsin e os gulags soviéticos.

     Nasci na segunda metade do século XX. Época de Guerra Fria, golpes de estado, revoluções, guerrilhas, totalitarismos, ameaça de holocausto nuclear. Parece que foi ontem. Imaginava-se que o apocalipse bíblico irromperia nos céus cruzados por mísseis balísticos. Mas nada disso aconteceu. O mundo seguiu em frente, o Muro de Berlim ruiu de podre, a União Soviética se acabou, vieram a globalização e a cibernética, muitos dos meus entes queridos se foram. 
     Ficamos nós e nossas cinzas, nós e nossas esperanças, nós e nossas perplexidades. 
     Para que recordar o que já está morto ou deveria estar morto?
     Talvez porque muita coisa lá de trás deixou de ser essencialmente pensada. Talvez porque nos deixamos levar novamente pela fúria crescente. Talvez porque esteja outra vez se gerando um monstro capaz de aniquilar a condição humana. Que alguns já chamam apressadamente de terrorismo. Que já foi nomeado de diversas maneiras, dissimulado, camuflado, insinuante, criminoso. No fundo é somente o velho ódio humano. Nada se pode fazer contra ele, porque é constitutivo da vida. Mas bem que se pode amenizar o nosso desvario. 
     Talvez por isso valha a pena recordar Soljenitsin, escritor russo que ganhou o Nobel de Literatura. Que esteve preso nos gulags soviéticos (Sigla, em russo, para "Administração Central dos Campos"; geralmente esses campos de trabalho forçado se situavam em regiões geográficas inóspitas, sob as condições climáticas extremas que levavam mais depressa à morte os prisioneiros mal-alimentados e submetidos a uma péssima higiene). Li seu Arquipélago Gulag nos meus vinte anos e o releio agora que os cabelos brancos já se impuseram com toda sua carga de silêncio e apreensão. 
      Recordar Soljenitsin para amenizar o ódio de agora. E para escapar da sensação de deus-dará que se experimenta neste aturdimento do século XXI que mal começou.
      Recordar Soljenitsin para repudiar as máquinas de morte totalitárias em qualquer parte do mundo. Aqui e lá. E até dentro da gente, que se transforma em campo de extermínio, quando se permite ser movido por aquela mesma força que vigorava tanto na loucura de Hitler quanto na de Stálin. E que vigorou em tantos caudilhos, em tiranos afamados ou anônimos. E que continua a germinar em nossos palácios, em nossas cadeias, em nossas ruas e até em nossas casas.
     Basta!
     Que fale Soljenitsin em toda sua impotência como homem sob o arbítrio. Que fale Soljenitsin em toda sua grandeza de artista da palavra.
___
" Detenção! Será necessário dizer que isso representa uma brusca reviravolta em toda a sua vida? Que é como a queda a pique de um corisco sobre a sua cabeça? Que é uma comoção espiritual insuportável, a que nem todas as pessoas podem adaptar-se, e que frequentemente leva à loucura?
O universo tem tantos centros quanto os seres vivos que nele existem. Cada um de nós é o centro do mundo e do universo, e ele se desmorona quando alguém nos sussurra ao ouvido: 'Está preso!'.
Se você já está preso, acaso algo terá ainda resistido a esse terremoto?
Incapazes, com o cérebro ofuscado, de abarcar esses abalos do universo, os mais sutis, exatamente como os mais simples dentre nós, não conseguem extrair nesse instante, de toda a sua experiência de vida, senão algo como: 'Eu? Por quê?'
Pergunta repetida milhões e milhões de vezes antes de nós, e que nunca obteve resposta.
A detenção é uma transição instantânea e evidente, uma ruptura, a passagem de um estado a outro. Ao longo da sinuosa rua da nossa vida caminhamos felizes, ou arrastamo-nos penosamente, passando diante de não importa que tapumes de madeira podre, de barro, de tijolo, de cimento, de ferro fundido.
Pensamos no que existe para além deles? Nem com a vista nem com o pensamento tentamos penetrar no que há por trás, quando é ali mesmo, bem perto, a dois metros de nós, que começa o país do Gulag. Nem ainda distinguimos, nesses tapumes, a inúmera quantidade de portas estreitas e bem ajustadas, bem camufladas. Todas, todas essas portas foram preparadas para nós! E eis que uma se abre rápida e fatal, e que quatro mãos brancas, masculinas, não habituadas ao trabalho, mas como garras, nos prendem pelas pernas, pelos braços, pelo colarinho, pelo boné ou por uma orelha, e nos arrastam como um fardo, enquanto a porta fica para trás de nós, a porta da nossa vida passada, fechada para sempre.
E é tudo. Você é um preso!
E nada encontra para responder a isso, a não ser um balido de cordeiro: 'Eu? Por quê?'.".
____ 
     Deixo este texto como uma possível contribuição à liberdade do pensamento e à preservação do que há de humano em cada um de nós. Para que a gente deve se transformar numa fábrica de morte? Que se ganha com isso? 

domingo, 28 de maio de 2017

O homem ao deus-dará I

     Escreveu Primo Levi, em É isto um homem?, sobre sua experiência em Auschwitz. Em toda a sua narrativa sobre a vida e a morte nos campos de extermínio nazistas, o que subjaz em seu dizer e mostrar o horror é a transformação da essência humana em nada. O escritor italiano nos leva àquele lugar em cuja entrada se lia a frase sombria ARBEIT MACHT FREI - o trabalho liberta -, a expressão da linguagem que norteava, de maneira distorcida e perversa, a eliminação dos inimigos do sistema totalitário. Traz-nos à reflexão o Mal e o desamparo do homem sem Deus. Precisamos pensar com Primo Levi sobre nossa condição humana, agora que o ódio também conquistou a primazia em muitos corações brasileiros aturdidos pelos movimentos da política interna. Os ódios de hoje se parecem muito com os ódios de outrora.
     Os habitantes de Auschwitz perdiam sua condição humana sob a racionalidade exterminadora dos nazistas e experimentavam a impossibilidade de vislumbrar, minimamente, o próprio destino; literalmente, encontravam-se no fundo do abismo, atordoados com a incerteza do futuro imediato: se comeriam hoje, se faria sol ou se nevaria, se tudo estava perdido ou se ainda poderia haver salvação. Eram animais atocaiados pelo homem-monstro, o mensageiro da morte, a suástica impiedosa. Não se sentiam mais gente, eram apenas molambos, homens vedados a sonhar com o retorno aos seus lares, às suas famílias, às suas pátrias.
     Ao lembrar-se que já fora um homem livre, Primo Levi assim se descreveu:
     "Aqui estou, então: no fundo do poço. Quando a necessidade aperta, aprende-se em breve a apagar da nossa mente o passado e o futuro. Quinze dias depois da chegada, já tenho a fome regulamentar, essa fome crônica que os homens livres desconhecem; que faz sonhar à noite; que fica dentro de cada fragmento de nossos corpos. Aprendi a não deixar que me roubem; aliás, se vejo por aí uma colher, um barbante, um botão dos quais consiga tomar posse sem risco de punição, embolso-os, considero-os meus, de pleno direito. Já apareceram, no peito de meus pés, as torpes chagas que nunca irão sarar. Empurro vagões, trabalho com a pá, desfaleço na chuva, tremo no vento; mesmo o meu corpo já não é meu; meu ventre está inchado, meus membros ressequidos, meu rosto túmido de manhã e chupado à noite; alguns de nós têm a pele amarelada, outros cinzenta; quando não nos vemos durante três ou quatro dias, custamos a reconhecer-nos." (Em É isto um homem?, p.35).
     O homem ao deus-dará.
     O então Papa Bento XVI, em sua viagem apostólica à Polônia, visitou os campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, no domingo de 28 de maio de 2006. Naquela ocasião, fez um discurso polêmico. Primeiramente, atribuiu aos dirigentes nazistas a responsabilidade exclusiva por aquela obra do ódio e do Mal, desconsiderando o suporte do povo alemão ao genocídio comandado por Hitler. Em seguida, talvez como manobra de retórica, introduziu Deus em sua argumentação, ao indagar sobre a ausência e o silêncio divinos em face da aniquilação de tantos inocentes sob as garras do nazismo:
     "Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do Mal?"
      Por que Deus nada fez e tudo permitiu?
      Aliás, nós, homens, temos o direito de fazer esta pergunta?
      Que Deus tem a ver com a responsabilidade dos homens pelos seus próprios atos?
..........
(continuação na próxima semana: O homem ao deus-dará II, Soljenitsin e os gulags soviéticos.