segunda-feira, 25 de maio de 2015

Miragem

(cadê você, mulher sobrevivente na memória?)

Parte I


Precisei sempre de uma visão fantástica para viver, por isso fui ao
deserto. Lá onde os olhos humanos são corrompidos pelo reflexo da luz
solar. Não falo propriamente dos desertos convencionais, das longas
extensões de terras inóspitas, calcinadas pelo sol. Nem sempre é preciso ir
ao Saara para colher ilusões sedutoras. Uma cidade pode ser também um
deserto, as multidões transformadas em rostos desconhecidos e
incomunicáveis, o resto convertido em solidão. É neste estar-só inexorável
que surgem terríveis miragens em cada esquina, em cada beco, em cada
avenida, em cada semáforo, em cada bar, em cada cinema.
Miragem, em meu caso, lembra um grande amor, mais pretensão
poética que realidade. A mulher perfeita, a amante, a namorada. Hoje eu
não falo mais seu nome. Digo somente: Miragem. Se penso, eu penso nesta
mulher. Se falo, eu falo desta mulher. Se sonho, eu sonho com esta mulher.
Mas quem é ela que, não existindo mais, insiste em permanecer em mim?
Que mulher pode ser para um homem seu ontem, seu hoje, seu amanhã,
quando não passa de uma simples impregnação poética? Ela existe e não
existe. Ela é miragem. Morre e revive em mim. Sempre. Não é como certas
estrelas que perdem o brilho quando morrem na vastidão do espaço. Ela me
ilumina simplesmente sem cessar. Sou mera sombra sem sua claridade.
Mulher perfeita?

Parte II

Dizem que a mulher perfeita é a que tem os olhos verdes da cor do
mar, ou quem sabe do azul do céu, ou pretos da noite de lua-nova. A que
tem cabelo para esvoaçar no vento da manhã, a que usa vestido negro numa
noite de sábado, a que cruza as pernas em público só para mostrar a
calcinha, a que homem nenhum consegue tocar de verdade. A que passa
indiferente, do outro lado da rua, a que fala na televisão, a que aparece nua
numa revista masculina, a que desnorteia os homens desamparados. Mulher
perfeita ou metáfora da perfeição?
Você nunca quis ser perfeita. Pegava minhas mãos e as enfiava por
dentro de suas roupas, me dizendo que era de carne e osso, “pode tocar,
não se sinta constrangido, meu bem”. De manhã cedo, fazia questão de se
mostrar despenteada, com cara de sono, falando que na vida não se beijava
na boca como se beija nos filmes, porque antes se deve escovar os dentes e,
de preferência, tomar um bom café para não passar mal enquanto se faz
amor. Mas, às vezes, de madrugada, você esquecia essas regras, vinha para
cima de mim, dizia que no escuro o mau hálito adquiria o gosto de hortelã.
Você tinha uma só perfeição: a de ser mulher de verdade.
Você existiu mesmo?
— Como é o seu nome?
— Miragem! – você me disse.
Foi assim que você falou numa esquina de Copacabana, vestida para a
noite. Eu novamente perguntei o seu nome, você outra vez me disse que era
Miragem, e eu ri pensando na metáfora da mulher perfeita.

Parte III

Miragem: minha namorada. Ela retrucava: “Sou sua amante!”. Para
que um homem precisa de uma amante? Eu indagava, ela negava resposta,
dizia que eu pensava em demasia e que deveria me concentrar mais no
amor. “Olhe-me bem, meu amor, sou sua amante!”.
Miragem dizia que as amantes eram as melhores namoradas,
incomparáveis, perfeitas para homens que precisam inexplicavelmente trair.
Inegável a vantagem da amante, incessantemente desejada pelo homem
que vê nela uma mulher feita exclusivamente de qualidades, isto é, uma
miragem em todos os sentidos. Vestida de um jeito de estar sempre pronta
para uma festa, o tempo todo disposta ao amor, raramente reclama de
fadigas, enxaquecas inesperadas, tristezas repentinas. Conversa sem
embaraço sobre todos os assuntos e, de vez em quando, consegue a façanha
de ser poliglota. Longe de ser a coisa comum do cotidiano. Fantasia dos
homens desnorteados.
Mas chega o tempo em que a amante perde o encanto, deixa de ser
novidade, vira mulher comum. Reduz-se, então, a uma pobre criatura,
desorientada no mundo. Nessas horas ela lamenta a condição de intrusa e a
falta de exclusividade que julga merecer. Cansa dos álibis e da
clandestinidade; quer ser a mulher oficial, a matriz e não a filial. Sozinha,
detesta os fins de semana, dias de insuportável solidão. A amante, quando
deixa de ser miragem, racha literalmente.
Mas Miragem nunca escondeu seus defeitos, nunca mostrou duas
caras, nunca quis ser fantasia, mas sim mulher de carne e osso. De sangue,
de suor, de glândulas.

Parte IV

Fui às enciclopédias pesquisar Miragem. Porque Miragem era frenética
em minha cama. Porque gozava alucinadamente, “o meu ponto G, você
encontrou o meu ponto G”.
Antigamente me diziam que toda mulher tem um grande mistério entre
as pernas e que conhecê-lo era tarefa primordial do homem. Eu indagava
aos mais velhos se por acaso eles se referiam à vagina. Eles, que pareciam
conhecer tudo da vida, riam de mim e frisavam que seria preciso viver pelo
menos sete vezes mais para decifrar todos os enigmas femininos. Depois de
muita conversa e risada, me revelavam: “Todo homem precisa dominar o
funcionamento do clitóris, que é o centro da lascívia feminina”.
Eu perguntava: “Miragem, que mistério é este no seu grelo?”
Miragem respondia: “Mistério nenhum. Apenas é sensível ao seu dedo
e à sua língua!”
Pois bem, um dia desses, lendo um tratado de Medicina, fiquei sabendo
do ponto G, uma glândula extremamente sensível – ou algo parecido – que
existe no interior e na parede frontal da vagina, a uns cinco centímetros de
sua abertura. Foi batizada de ponto de Gräfenberg, em homenagem a um
certo doutor Ernst Gräfenberg, um médico alemão que se notabilizou por
essa descoberta inusitada da genitália feminina.
Miragem nunca se perdeu em detalhes técnicos, ia direto ao assunto:
“Quero ficar sentada sobre você, assim você atinge intensamente o meu
ponto G...”. Minha amada jamais se interessou por pesquisas científicas. “E
precisa discutir, meu amor?”.
Dizem os cientistas que se trata de um pequeno ponto no corpo
feminino, não tão visível quanto o clitóris, menor ainda, mais úmido e mais
oculto. Decifrar seu código é o que precisa o homem para levar uma mulher
ao orgasmo impensável. Quero conhecer bem todos esses pontos, essas
glândulas secretas, mas sei que preciso ir além dos gráficos dos anatomistas
para atingir o lugar mais fecundo e doce da alma feminina. Lá onde a mulher
guarda, diligentemente, os seus mais preciosos favos de mel.
Nessas horas, Miragem me capturava: “Você pensa demais, que tal me
amar agora? Quero ficar por cima de você, bem sentada, que é assim que
você atinge intensamente o meu ponto G...”. E, depois, contente, ela dizia:
“Agora vamos sair, ver as vitrines, bater pernas...”

Parte V

Miragem na butique de lingerie. Um instante inusitado. Preciso mesmo
escolher?, ela me perguntava várias vezes, eu dizia que sim. Apontava
adiante, trêmulo, renda e seda, cor e um pedaço de pele, pequena ou maior
que o desejável. Lingerie, meu bem, é meu fetiche, você bem sabe. Miragem
abria a bolsa, tirava um comprimido de tarja preta, “toma, toma, senão vai
ser aqui mesmo, na cabine de experimentar roupa”. Safada, Miragem era
safada, me encabulava de propósito na frente das senhoras e adolescentes.
Eu era o único homem na butique refinada. Enquanto Miragem escolhia
lingerie, eu olhava as outras mulheres. Em algumas, eu notava a
desesperança, a trivialidade da escolha. Noutras, havia o brilho do olhar de
felina, a imaginação solta entre se verem mais ou menos vestidas, tudo
dependendo do tamanho ou da transparência da calcinha escolhida.
Miragem me beliscava, “está olhando o quê? nunca viu?”. Então me
mostrava suas escolhas: eu escolhia a calcinha de renda negra, quase
transparente, e o sutiã cor de sangue. “Vem me ver, então, vem na cabine,
vem dizer se o conjunto cai bem”.
Na cabine, Miragem se desvestia primeiro para pôr o sutiã cor de
sangue e a calcinha de renda negra. “Que tal?” Linda, eu só dizia: linda,
muito linda, vamos embora. Rápido, passávamos pela caixa registradora,
pela seção de embrulhos, eu arrastava Miragem comigo, ela amava os meus
impulsos desse tipo. Íamos apressados, sem respeitar semáforos.
Dessas coisas me lembro, tanto quanto do sutiã cor de sangue e da
calcinha de renda negra, ah eu me lembro da umidade e do furor de
Miragem. Da mulher que, depois de fazer amor e dormir, se levantava cedo
e fazia café para nós dois. Da mulher que gostava de poesia e, por isso,
recolhia os versos dispersos que eu escrevia pela casa.

Parte VI

Miragem, que aconteceu? Você perdeu o gosto de se sentar sobre mim
para que eu lhe atingisse intensamente no ponto G? Ou você simplesmente
cansou de ser uma romântica irresponsável?
Penso no que você terá feito dos versos que escrevi no espelho de sua
cômoda.
Penso em tantas coisas. Penso e não penso. Não é possível pensar
quando você dança, em meu pensamento, com um vestido negro decotado.
Minha mente é uma tela de cinema: as imagens substituíram os
pensamentos, você agora me atordoa, de sutiã cor de sangue e calcinha de
renda negra, no meio de sombras. Cadê você, Miragem?
Meus remédios de tarja preta.
Aturdido, não sei mais o que fazer.
Deus do céu, cadê esta mulher?

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Os deuses e a ordem política e social

1. Introdução
O livro X de As leis de Platão destaca a gravidade das licenças e insolências cometidas pela juventude, sugerindo, em seu preâmbulo, para que se elaborem sabiamente as leis do Estado, a necessidade de educação dos cidadãos, fundamentando-a na crença aos deuses: “ninguém que acredite, como é prescrito pela lei, na existência dos deuses, jamais cometeu uma ação ímpia voluntariamente ou proferiu uma palavra criminosa” (Leis, X, 885b). Por conseguinte, entre os que praticam e/ou estimulam a injustiça, encontram-se os ímpios, agrupados pelo ateniense (em debate com Clínias e Megilo, os outros protagonistas do diálogo) segundo três convicções: aqueles que não acreditam nos deuses; aqueles que acreditam nos deuses, mas não que estes se importem com os seres humanos; e aqueles que acreditam que os deuses são passíveis de serem subornados por oferendas e orações.
Evidencia-se, na elaboração do projeto legislativo para o Estado magnesiano, a predominância do caráter essencialmente educador da lei, cujo alcance pedagógico deve ser estendido à cidade inteira, não mais se limitando apenas ao governante. O discurso filosófico se apresenta como sustentáculo da legislação, em forma de preâmbulos, nos quais se formulam e se fundamentam as normas do bem agir, precedendo os preceitos coercitivos do legislador; em outros termos, vem, primeiramente, a persuasão e somente depois a coerção. A correta educação deve ser aplicada continuamente desde a infância até a velhice[1] e, neste sentido, encaixa-se o papel pedagógico da constituição legal.
Também fica evidente, no discurso sobre a crença nos deuses, a tentativa de se legitimar metafisicamente as leis humanas, confiando-se plenamente no ethos divino, ao invés de amparar-se, por exemplo, na vontade dos mais fortes ou dos mais ricos. Ao tomar como base a moral fundada pelos deuses, pode o homem justo amar a justiça em si mesma, diferenciando-se do homem da “moral” comum, que é propenso a obter vantagens com a injustiça, ao mesmo tempo em que se escuda na proteção das leis, reivindicando, hipocritamente, valores e fazendo discursos de aparência sobre o bem, sem qualquer relação com o ser. Vê-se em tal comportamento um simples cálculo de interesse pelo homem que, embora amando secretamente a injustiça, se priva de realizá-la, não porque ame a justiça, mas para não ter de sofrer as injustiças alheias ou mesmo sofrer punições. O célebre mito do anel de Giges desvela o auge da injustiça: assinala que o sonho secreto de cada homem é parecer justo sem o ser (República, II, 359b sq.)[2].  Ressalte-se, contudo, que a divindade em Platão não é a mesma apregoada pelos poetas, mas sim um Bem supremo, que é comprovado dialeticamente pela filosofia. O filósofo converte-se, pois, em legislador, empenhado em educar toda a cidade contra a impiedade dos discursos dos poetas e materialistas, que, em verso e prosa, desconhecem a anterioridade da alma em relação ao corpo, pondo em primeiro lugar o que é último, isto é, os princípios materiais. “A alma é mais velha que o corpo, e não diferentemente.” (Leis, X, 892c).
Ao identificar a impiedade como gênese da injustiça e estabelecer leis para que os ímpios renunciem ao seu ateísmo em favor dos caminhos dos piedosos, o ateniense atribui diferentes tipos de prisão e castigo, com o fito de restabelecer a justiça. Ao fazê-lo, termina por incluir, entre os apenados, aqueles que, embora não acreditando em deuses, nem por isso perdem seu caráter naturalmente justo – ou seja, pune-se o justo pelo fato de ser ateu e não porque seja injusto. Sem contar que, ao aplicar as leis para os demais ímpios, termina por recair no que antes se queria evitar: a vontade arbitrária do mais forte – no caso, o Estado. Trata-se, pois, de uma dupla contradição, isto é, tanto ao defender os deuses – que não precisam da ajuda humana – com as penas dos homens quanto ao punir o justo não porque seja injusto, mas por ser ímpio.
Com uma breve reflexão sobre o que significa justiça no pensamento de Platão e o sentido das leis contra impiedade, pretende-se, neste breve ensaio, tentar compreender essa aparente antinomia.


2. A justiça em Platão e o sentido das leis contra a impiedade
            Nosso breve ensaio se estrutura em três partes: numa primeira, esboça-se o conceito de justiça em Platão, com base em seus argumentos sobre o homem e as virtudes cardeais, presentes nos quatro primeiros livros de A república; numa segunda, descrevem-se os tipos e subtipos de crimes de impiedade e as diferentes prisões para as quais são destinados os ímpios, conforme o estabelecido no livro X de As leis; e, finalmente, numa terceira, comenta-se sobre a aparente contradição do fato de uma lei humana punir em nome dos deuses.  
            Tratemos, inicialmente, do conceito de justiça em Platão.
            Toda a práxis política em Platão se volta, primordialmente, para a dimensão ética e política da existência humana. Segundo Jaeger, “o problema para o qual desde o primeiro instante se orienta o pensamento de Platão é o problema do Estado” (2003, p.749). Toda a argumentação política e ética platônica, em A república, como se constata já na leitura do livro I, tem como ponto de partida a busca da definição de justiça. Tem em vista com isso estabelecer uma nítida diferenciação entre as esferas da ética e dos apetites desmedidos, pois no agir do homem se mantém uma relação nem sempre simétrica entre lei e desejo, e é dessa assimetria que, geralmente, emergem as crises morais. Comumente, nessa relação entre desejo e lei, o homem se situa em três posições: ou dá preponderância ao desejo, em detrimento da lei; ou abre mão do desejo em prol da lei; ou opera o desejo em níveis mínimos, isto é, na justa medida, em conciliação com a lei.
            Como em seus diálogos anteriores, Platão, por meio de Sócrates, continua a utilizar o método dialético em A república, em torno da definição de justiça. Diante de Céfalo, para quem a justiça é “dizer a verdade e devolver o que se tiver recebido de outrem”, diz:

Belas palavras as tuas, Céfalo, disse eu. E, assim, afirmaremos que em si a justiça é simplesmente dizer a verdade e devolver o que se tiver recebido de outrem? Ou que é possível, às vezes, agir com justiça e, às vezes, contra ela? Por exemplo, quando alguém, de um amigo que estivesse em seu juízo perfeito, recebesse armas, se, estando fora de si, ele as pedisse de volta, todo mundo diria que não deve devolver tais armas e que não agiria com justiça quem as devolvesse, nem se quisesse dizer toda a verdade a alguém nesse estado. (A república, I, 331c).

            Já com Polemarco, que se faz porta-voz do poeta Simônides, para quem a justiça seria devolver a cada pessoa o que lhe é devido, Sócrates apresenta sua refutação com o paradigma da techné (técnicas). Sócrates diz que quando o poeta usou a expressão o que lhe é devido, ele pensava que o justo seria dar ao outro o que lhe convinha:

Então, se alguém lhe perguntasse: “Simônides, a quem e o que a arte chamada medicina dá o devido e o conveniente?”, o que pensas que ele nos responderia? Polemarco responde: “Evidentemente que aos corpos dá remédios, alimentos e bebidas”. (A república, I, 332c).

            Ora, Sócrates, para opor-se à pretensão democrática de que cada um pode se exprimir sobre qualquer assunto, apresenta o paradigma da techné, ou seja, o critério técnico que deve ser plenamente seguido por todos. O saber técnico é o exemplo de um saber reservado. Quando se toca um domínio de competência particular, cada um concorda que a palavra deve ser dada ao homem de arte, àquele que mais sabe do assunto. Tem-se aqui a pedra fundamental do socratismo, que torna ilegítimas as pretensões democráticas da multidão, pois, muitas vezes, um só indivíduo pode ter mais razão do que muitos.
            A dialética e a associação com as technai (técnicas) também são usadas por Sócrates para refutar o sofista Trasímaco, que vê a justiça como o interesse do mais forte. Ele demonstra a hierarquia das técnicas, dizendo que as diversas artes não têm por objetivo a sua própria vantagem, pois não necessitam de nada, mas sim a do indivíduo a que se aplicam. As artes governam e dominam o objeto sobre o qual se exercem. A medicina, por exemplo, não visa ao vantajoso para a medicina, mas para o corpo. A equitação, por sua vez, não visa ao vantajoso para a equitação, mas para os cavalos; e assim por diante. Desse modo, Sócrates afirma a Trasímaco que

[...] nenhuma outra pessoa, em nenhum posto de comando, na medida em que é chefe, tem em vista e impõe o útil para si mesmo, mas o útil para o governado e para aquele a quem ele presta serviço e, voltando os olhos para isso e para o que é útil e conveniente para aquele, diz tudo o que diz e faz tudo o que faz. (A república, I, 342e)

            Esse diálogo se aprofunda pela antropologia platônica no livro II de A república, no qual, devido ao impasse sobre a definição de justiça, Platão ampliará seus comentários sobre as technai (artes) e buscará encontrar, pela dialética, uma techné superior, aquela que conterá o logos do ser e na qual se encontra a capacidade dos belos discursos e a arte de governar. Duas argumentações sobre a definição de justiça merecem destaque: a de Glauco, a partir do raciocínio de Trasímaco, e a de Adimanto, em sentido contrário à de Glauco.
São três os pontos argumentativos de Glauco: o primeiro, o que afirma ser a justiça e qual a sua origem: a justiça seria um acordo entre os homens, mediante o qual estes se privam do maior bem, que é cometer a injustiça, em vista de não sofrerem o mal maior, que é ser vítima da injustiça; o segundo, o que afirma que todos os que praticam a justiça o fazem contra a vontade do que realmente gostariam de fazer, ou seja, todos gostariam de praticar a injustiça, em decorrência da predominância do desejo ilimitado sobre a lei (primazia da epythimia em cada homem, isto é, do desejo sensível); ora, ao se conceder ao justo e ao injusto a possibilidade de fazerem o que bem quiserem, sem coerção, logo se apanhará o justo em flagrante a cometer injustiça, ou seja, buscando o mesmo objeto buscado pelo injusto, em razão da sanha, hybris; o que se busca como bem (quando invisível, como no mito do anel de Giges) é o bem sensível; a justiça, por conseguinte, é vista como uma repressão do desejo; e o terceiro, o que afirma que a vida do injusto é muito melhor do que a do justo, uma opinião não compartilhada por Glauco, embora este se sinta embaraçado por ouvir como válidos os argumentos de Trasímaco e outros sofistas, que dão a esses discursos dissociados do ser uma aparência de verdade. Quanto a Adimanto, a argumentação sobre a justiça se põe em sentido oposto ao de Glauco. O argumento apresentado é uma tese elogiosa à justiça, mas se percebe que, por trás da aparência de verdade do discurso, o que se assume é a injustiça, o propósito de se desacreditar a justiça.
Fica bem evidenciado o caráter problemático da tarefa de se definir a natureza e a origem da justiça. Em Glauco, inicialmente, entende-se que a origem e a essência da justiça se encontram no dilema de situar-se entre o maior bem – cometer impunemente a injustiça – e o maior mal, o de sofrê-la quando se é incapaz de confrontar-se o injusto. É por isso que se originaram as leis e as convenções, considerando-se legítimo e justo o que prescreve a legislação. Ora, mas Glauco também se vale do mito do anel de Giges para realçar a epythimia (apetite corporal) como causa da injustiça cometida pelo homem, cuja natureza – sendo justo ou sendo injusto – é deixar-se levar pelas ambições, pelas paixões e pelo desejo de prevalecer sobre os outros. O indivíduo é um problema para a justiça, por isso é fundamental tratar antes o todo, isto é, a cidade. Além disso, Glauco afirma ainda que a vida do injusto é muito melhor do que a do justo. Esta parece não ser a opinião dele, mas é o que costuma ouvir da maioria dos homens que se pronunciam a respeito disso. Ao fazer um juízo da vida do justo e do injusto, Glauco demonstra que os ditos homens justos praticam a justiça apenas para receber honrarias e recompensas e não porque sejam realmente justos. Em outros termos, o injusto se dissimula habilmente quando realiza alguma má-ação e quer ser superior na injustiça. E o justo é aquele que apenas parece ser justo, e por isso é recompensado pelos outros. Assim sendo, as opiniões que situam a injustiça sobre a justiça só comprovam como a vida do injusto parece ser melhor do que a do justo. O injusto governa a cidade graças ao seu aspecto de homem justo, mas, em contrapartida, arranja mulheres onde lhe apraz, constitui associações de prazer e negócios com quem lhe agrada e tira proveito de tudo, porque não tem escrúpulos em ser injusto. Normalmente, ele prevalece sobre os adversários, enriquece ilicitamente, prejudica os inimigos, ajuda os amigos e chega ao cúmulo de obter até mesmo favores dos deuses a quem oferece sacrifícios e oferendas. Todo esse quadro aponta um favorecimento ao injusto, por parte dos deuses e dos homens, o que lhe faz viver melhor do que o justo.
Quando Glauco acaba de falar, é a vez do seu irmão, Adimanto, discursar. E Adimanto apresenta tese contrária à de Glauco – a tese dos que elogiam a justiça, mas assumem a injustiça –, porém com o propósito de também desacreditar a justiça. Afirma que é comum elogiar a justiça não pelo que ela é em si mesma, mas pela reputação que acarreta, ou seja, as pessoas se mostram justas apenas para receberem os benefícios da aparência. Ora, segundo Adimanto, todos celebram como boas a temperança e a justiça, mas as consideram difíceis e penosas; ao contrário, a intemperança e a injustiça lhes parecem agradáveis e de fácil domínio, somente vergonhosas na ótica da opinião pública. Até os deuses reservam, muitas vezes, aos homens virtuosos, o infortúnio e uma vida miserável. O injusto chega a fazer negociatas com os deuses para obter o que deseja e ambiciona. Mostra-se aqui, mais uma vez, a injustiça como o resultado da primazia do desejo corporal (epythimia), que deve ser controlado para o bem da cidade. Afinal, na Atenas daquela época priorizava-se parecer justo ao invés de ser verdadeiramente justo, ou seja, um homem que fosse justo sem o parecer jamais tiraria proveito dessa condição; ao revés, só teria aborrecimentos e prejuízos. Mas se fosse injusto e gozasse da reputação de justo, lhe diriam que levava uma vida divina. Portanto, a aparência surge como distribuidora da verdade e senhora da felicidade. Era com base nisso que os pais e mestres educavam as crianças. Então, por que motivo se deveria preferir a justiça à injustiça?
Está claro, no exame da argumentação de Glauco e Adimanto, que o problema da injustiça e da decadência dos valores de Atenas é o homem que não exerce o devido controle sobre seus desejos, o que não dá a justa medida à sua epythimia, o que vive predominantemente na esfera da paixão e desconhece outras dimensões da vida, como a vida sob o domínio da razão – este é o injusto que precisa ser educado na dialética socrática. Ora, Sócrates entende que a investigação sobre a justiça não pode se limitar ao indivíduo, mas sim estender-se a toda a cidade. É na cidade que a justiça será mais visível; somente depois é que se deve buscar a justiça no indivíduo, até para que se verifique a semelhança entre a justiça grande e a pequena. É então que Platão retoma a associação das technai ao propor construir a cidade ideal a partir das necessidades dos indivíduos, porque o que causa o nascimento de uma cidade é justamente a impossibilidade que cada indivíduo tem de se bastar a si mesmo e também a necessidade que sente de ter uma porção de coisas, isto é, bens sensíveis. Contra esse homem injusto, Platão se apresenta em polo oposto, propondo-lhe encontrar, pela dialética, o logos do ser, a verdade situada além dos falsos saberes e do prestígio aparente dos belos discursos sofísticos.
A pedagogia socrática, por meio de Platão, ressoa no livro III de A república, com a retomada das acusações contra os poetas – é preciso livrar as crianças das falsidades dos poetas; é necessário realçar o heroísmo, a figura de Aquiles e não a dos homens fracos e covardes que só sabem se lamentar; é urgente pôr fim às influências negativas dos mitos. Observe-se, desde já, que a divindade em Platão – fundamento para a legislação da colônia de Magnésio, como se poderá constatar em As leis – é completamente oposta à teogonia hesiódica e às sagas de Homero, nas quais o ethos dos deuses é tremendamente flexível e, por vezes, esgarçado pela amoralidade. Os argumentos platônicos conduzem a cidade para um modelo educacional que transporte o homem para além da experiência sensível, livrando-o das sombras e das aparências, e o faça chegar ao conhecimento da razão. Por isso é que Platão deseja eliminar, da educação dos jovens e das crianças, as fábulas dos poetas, que, segundo ele, só contêm falsidades sobre os deuses, descritos na poesia com todos os seus defeitos, e não perfeitos como o são as divindades. Discute-se, desse modo, o que deve ser dito na poesia (conteúdo) e como deve ser dito (forma). Propõe-se que sejam expurgadas das fábulas as asserções que reforcem a epythimia e a autopiedade, consideradas prejudiciais à educação. Diante das referências aos deuses e heróis encontradas em Homero, Sócrates diz que devem ser preservadas as divindades e as figuras heroicas das cenas de fraqueza e lamento; também rejeita o prazer psicológico daqueles que se põem como vítimas e têm sede de lágrimas. São estabelecidos os conteúdos para os mitos, bem como as ações que devem ser imitadas, isto é, a dos homens nobres, pois a imitação se transforma em hábito e natureza para o corpo, a voz e a mente – assim, só se deve imitar o que seja bom para o homem de bem; enaltece-se a educação baseada na música e na ginástica.
É no livro III de A república que Platão retoma a busca dialética pela melhor definição de justiça, a partir das outras virtudes cardeais: a temperança, a coragem e a sabedoria. Definidas essas virtudes, chegar-se-ia, por exclusão, à justiça. No exame do que se entende dessas virtudes, Platão, por meio de Sócrates, leva-nos ao seu modelo de educação baseado na música e na ginástica. Diz que a alma tem dois elementos, a coragem e a sabedoria, que precisam estar perfeitamente equilibrados, e que a coragem está ligada à ginástica, como a sabedoria se liga à música. É preciso haver harmonia entre música e ginástica, porque a música conduz o homem à sabedoria, e a ginástica, à coragem. É a música que permite o contato com a musa, capacitando o homem a servir-se do discurso para persuadir os demais, livrando-os dos grilhões das sensações e tornando-os amigos da razão (apenas o homem educado tem modelos dados pela razão): assim tornar-se-á sábio. Por outro lado, se o homem se entregasse somente à música, entregar-se-ia à moleza e à brandura excessivas, pelo que precisa da rusticidade propiciada pela ginástica: assim tornar-se-á corajoso. Aí já pode se perceber a presença do logos, o que faz o filósofo aparecer como o líder capaz de associar, harmonicamente, a ginástica à música. Tal é o plano geral da educação da cidade, que visa a produzir um homem eminentemente útil a si mesmo e à cidade, o governante idealizado, porque comedido, sensato, racional e com pleno domínio sobre as emoções.
 No livro IV de A república aprofunda-se a relação entre justiça e felicidade na cidade ideal. Ao oráculo de Delfos é encaminhada a questão religiosa. Outros aspectos da cidade são regulamentados. Agora, fundada a cidade, pode-se tentar novamente encontrar onde se acham precisamente a justiça e a injustiça. Indaga-se, com mais minúcias, sobre a justiça, a partir das virtudes cardeais – sabedoria (sophia), coragem (andreia), temperança (sophrosyne) e justiça (dikaiosyne). Essas virtudes só podem ser adquiridas pelo cidadão se este for educado adequadamente desde criança, e esse raciocínio se manifesta agora com mais clareza. Estabelece-se uma relação entre justiça e felicidade: na cidade bem construída, todos são felizes e não apenas alguns. É preciso haver unidade na polis, o que se consegue quando cada cidadão se ocupa de sua tarefa própria: quem é governante, deve ser apenas governante; quem é guerreiro, deve ser apenas guerreiro; quem é artesão, deve ser apenas artesão.
Da temperança, Platão diz que se trata do domínio sobre certos prazeres e paixões; o homem temperante é senhor de si mesmo, e isso significa que sua parte racional e superior supera sua epythimia; se não fosse assim, seria escravo de si mesmo, isto é, sua parte inferior e emocional tomaria conta dele. A natureza superior, moldada pela educação, deve prevalecer sobre o inferior e impor seus valores. Esta harmonia existente no indivíduo se estende para a cidade, onde também deve haver um acordo harmonioso pelo qual os governados, em maior número, se submetam aos governantes, do mesmo modo que os desejos numerosos se subordinam à razão.
Da sabedoria, Platão diz que se trata da posse de uma epistéme (conhecimento) pela qual se delibera sobre a melhor maneira de a cidade se comportar consigo mesma e perante as outras cidades. Tem por objeto a conservação do Estado e se encontra nos magistrados, que são os guardiões perfeitos; essa epistéme é a filosofia.
Da coragem, Platão afirma que se trata da capacidade (dynamis) e perseverança em conservar, em qualquer circunstância, especialmente nas vicissitudes, a opinião sobre as coisas a temer. Em outras palavras, trata-se daquilo que o legislador designou na educação, uma espécie de salvaguarda, os valores internalizados dos quais resultam uma opinião reta e legítima. Por conseguinte, todos devem dar de si o melhor para a cidade, segundo uma lei maior, que é exatamente a lei internalizada pela educação. Todos se predispõem a obedecer às suas consciências, voltados para o bem comum. É por isso que a cidade bem fundada gera o Estado perfeito, pois ela será sábia, corajosa, ponderada e justa. Assim, a coragem se caracteriza como logos, a vontade de fazer cumprir a lei maior, internalizada em cada homem pela educação.
Da justiça, portanto, após ter examinado as demais virtudes cardeais, Platão pode dizer agora que se trata do princípio de fundação da cidade, pelo qual cada um desempenha a sua função própria, sem interferir no trabalho dos outros. Encontra-se na cidade bem governada, isto é, dirigida pelo governante que possui a epistéme e a dynamis para gerar e preservar as outras virtudes. Justiça, por conseguinte, é o que resulta de dois princípios em confronto no indivíduo: o elemento racional e o elemento irracional, entre os quais um terceiro elemento, o irascível, se põe como auxiliar da razão. Isso se estende às classes da cidade, assim representadas: os governantes como o racional; os artesãos como o irracional; e os guerreiros como o irascível. É da primazia da racionalidade que surge a justiça tanto na alma do homem quanto na cidade bem fundada. Pode-se agora vislumbrar como a coragem – a força que salvaguarda a opinião reta e legítima sobre os valores da educação, internalizados pelo que o legislador previamente estabeleceu – se alia à sabedoria, a epistéme capaz de conservar o Estado. Sendo esta epistéme a filosofia, é necessário que o governante seja filósofo ou no mínimo o rei convertido à filosofia. É o logos – portanto, o rei filósofo – que determinará ao poeta que elabore mitos (fábulas) com função pedagógica, isto é, a poesia necessária ao processo de internalização e hierarquização de valores que levem o cidadão à opinião reta e legítima (coragem).
Ora, a cidade ideal de Platão nunca se tornou realidade, o que não invalida seu projeto. Não é tão simples impor à multidão da cidade a autoridade do filósofo, especialmente quando o discurso filosófico passa a enfrentar outras técnicas discursivas, como a retórica, a sofística e a erística. Os sofistas introduzem um discurso utilitarista, que não se preocupa em atingir o ser e se situa na neutralidade da linguagem – o logos deixa de estar ligado ao ser; agora diz tanto uma coisa quanto o seu oposto, não mais diz o ser e as coisas assim como são; são discursos de aparência e contrários à existência dos deuses e à moralidade nestes fundada; descreem da intervenção dos deuses na criação do mundo; refugiam-se no materialismo mais estrito e chegam a derivar a alma dos elementos materiais como o ar, o fogo, a água e a terra. Perde-se, assim, uma linguagem consubstancialmente ligada ao ser; o discurso admite a mentira como premissa do argumento; “o homem é a medida de todas as coisas”, diz Protágoras, e a lei vigente logo se torna a expressão da vontade da classe dominante; em consequência, é preciso agir contra os sofistas, fazendo a cidade reencontrar, para o bem da ordem política, o seu fundamento e a sua legitimidade numa ordem cósmica.
O ateniense de As leis, conhecedor desse projeto irrealizado da cidade ideal e do seu rei filósofo, em meio às influências dos sofistas e dos físicos sobre as opiniões da juventude, vai ao encontro de Clínias e Megilo para contribuir com a elaboração das leis da colônia de Magnésio.  Se em A república, a teoria das ideias e o Bem supremo têm lugar central, deles derivando todas as ações humanas por participação, em As leis se concede maior importância à experiência e ao problema da formação elementar da multidão, partindo-se dessas raízes terrenas para as esferas suprassensíveis, caminho inverso da dialética educacional da cidade ideal. A dialética do Bem, no Estado magnesiano, se dá na multiplicidade das suas manifestações. A ideia do Bem é exigida como conteúdo da cultura do governante. Retoma-se a fundamentação das leis numa ordem cósmica, isto é, na divindade, e se faz necessário, portanto, combater a impiedade com uma educação correta[3]. Afirma Jaeger, a respeito do grande espaço ocupado pelos problemas de educação em As leis, que “A finalidade da obra, no seu conjunto, era edificar um formidável sistema de educação. A sua atitude em face da Paideia aparece exposta com maior clareza de princípio numa passagem do livro X” (2003, p.1299). Ele se refere ao paralelo estabelecido por Platão entre o mau legislador e o médico de escravos, bem como ao paralelo entre o médico que se dedica a tratar cidadãos livres e o filósofo convertido em legislador. É bem conhecida essa passagem:

O ateniense: Deve, então, o preposto que nomeamos para essas leis deixar de fazer uma tal formulação inicial e declarar imediatamente o que tem que ser feito e o que não tem e indicar a punição na qual incorre a desobediência, e assim voltar-se para uma outra lei, sem acrescentar aos seus estatutos uma única palavra de encorajamento e persuasão? Tal como ocorre com os médicos, um nos trata de uma maneira, outro de outra: eles dispõem de dois métodos diferentes dos quais podemos nos lembrar, para que, como crianças que pedem ao médico para que as trate pelo método mais brando, possamos fazer um pedido semelhante ao legislador. E o que queremos dizer com isso/ Há homens que são médicos, segundo dizemos, e outros que são assistentes de médicos, mas chamamos estes últimos também de médicos, não é mesmo?
Clínias: Sem dúvida, nós o fazemos.
O ateniense: Esses, sejam eles livres ou escravos, adquirem sua arte sob a direção de seus mestres por meio da observação e da prática e não pelo estudo da natureza, que é o meio pelo qual os médicos livres eles mesmo aprendem a arte, sendo também este o meio pelo qual instruem seus próprios discípulos. Dirias que temos aqui duas classes do que é chamado de médicos?
Clínias: Certamente.
O ateniense: Estás também ciente de que como as pessoas enfermas nas cidades são constituídas tanto por escravos quanto por cidadãos livres, os escravos são geralmente tratados pelos escravos, em suas rondas pela cidade ou aguardado nos dispensários; e nenhum desses médicos dá ou recebe quaisquer explicações sobre as várias doenças dos diversos servos que tratam, limitando-se a prescrever para cada um deles o que julga certo com base na experiência, como se detivesse conhecimento exato, e com a autossuficiência de um monarca despótico; em seguida passa de um átimo muito rapidamente para um outro servo enfermo, poupando assim seu mestre do atendimento dos doentes. Mas o médico nascido livre se ocupa principalmente em visitar e tratar das enfermidades das pessoas livres e o faz investigando-as desde o começo e conforme o curso natural; conversa com o próprio paciente e com seus amigos, podendo assim tanto obter conhecimento a partir daquele que padece da doença [e seus amigos] como transmitir a estes as devidas impressões na medida do possível. Ademais, ele não prescreve nada ao paciente enquanto não conquistar o consentimento deste, para só quando consegui-lo então, mantendo a docilidade do paciente por meio da persuasão, realmente tentar completar a tarefa de devolver-lhe a saúde. (As leis, IV, 720a-e).
  
Esse processo educacional fundamentado na moralidade do cosmos divino está bem claro no livro X de As leis, em cujo prólogo Platão, por meio do ateniense, comenta sobre os ilícitos mais graves cometidos pela juventude, destacando os que atingem as coisas públicas e sagradas e atribuindo como causa de todas essas ofensas a impiedade que é propagada pelos sofistas e físicos. Sob esse ponto de vista, os males humanos vêm todos da descrença nos deuses e em sua moralidade cósmica, sendo os materialistas os verdadeiros responsáveis por isso, porque propagam discursos mentirosos e utilitários que tomam o homem como a medida de todas as coisas. O ateniense enuncia três tipos de impiedade: primeiro, a descrença nos deuses; segundo, a crença nos deuses, mas não que estes se importem com os seres humanos; e terceiro, a crença em que os deuses são fáceis de serem conquistados quando subornados por oferendas e orações. Para cada tipo de impiedade, resultam duas formas derivadas de impiedade.
Do primeiro tipo de impiedade, por exemplo, – a descrença nos deuses – há dois subtipos de impiedade: há o ultraje cometido pelos ímpios de caráter justo e que repudiam a injustiça; e há o ultraje dos ímpios que, além da descrença na existência dos deuses, fraquejam ante seus prazeres e sofrimentos, isto é, são dominados por sua epythimia, embora sejam dotados de memória e possuam inteligência aguda. “De maneira similar, a crença de que os deuses são omissos gera dois outros tipos de impiedade, e a crença de que sejam subornáveis, outras duas” (As leis, X, 908e). Todos os ímpios, inclusive os justos, serão aprisionados.
Ora, ao se referir ao aprisionamento que será aplicado a todos os casos de impiedade, Platão, por meio do ateniense, comenta sobre os três tipos de prisões no Estado, para as quais serão encaminhados os diversos tipos de ímpios, incluindo os justos:

uma prisão pública perto da ágora para a maioria dos casos, mantendo a segurança das pessoas em relação aos criminosos médios; uma segunda prisão situada próximo da sala de reuniões dos oficiais que realizam reuniões noturnas (chamada de reformatório); e uma terceira no centro do território, no sítio mais selvagem e ermo possível, e que detém um nome que evoca a ideia de um lugar de castigo; e visto que as pessoas se envolvem na impiedade pelas três causas que descrevemos, resultando de cada uma dessas causas duas formas de impiedade, consequentemente aqueles que transgridem contra a religião caem em seis categorias que precisam ser distinguidas, já que requerem penas que são tanto diferentes quanto dessemelhantes. (As leis, X, 908a).

            Ora, Platão pune os ímpios justos com advertência e prisão, sem considerar que, embora descreiam nos deuses, amam a justiça, odeiam instintivamente o mal e repudiam as ações injustas. Quer dizer, amam a justiça em si mesma, sem necessitarem dos fundamentos da moralidade dos deuses. Todavia, por isso mesmo, segundo Platão, amparam-se em discursos humanos dissociados do ser e da verdade – o logos, neste caso, dá lugar às exigências de uma moral apoiada sobre a lei positiva. Quanto aos ímpios injustos, dominados por sua epythimia, empenhados em transmitir sua perversão aos demais habitantes da cidade, a pena é o reformatório, onde são persuadidos por aqueles que participam da assembleia noturna, durante um período não inferior a cinco anos, em completo isolamento em relação aos demais, a salvarem suas almas; caso eles se recuperem, passarão a morar com aqueles que foram recuperados; em caso negativo, poderão ser sentenciados à morte. E quanto aos que afirmam serem os deuses negligentes ou subornáveis, a corte os aprisionará na prisão situada no meio do território, impedindo que deles se aproxime qualquer pessoa e que recebam suas rações de alimentos segundo o fixado pelos guardiões das leis. Como apenas o legislador não será culpado pelo deus, por já ter estabelecido a lei, verifica-se que se incide na definição de justiça como a expressão arbitrária da classe mais forte, não obstante a fundamentação metafísica da legislação. Trata-se aparentemente de uma antinomia a aplicação de uma lei baseada na moralidade do cosmos divino e pela qual se deseja evitar o voluntarismo dos mais fortes e dos injustos, pois tanto se pune o ímpio que ama a justiça – embora descreia dos deuses – quanto se mata o outro homem em nome dos deuses que, por serem perfeitos, não precisam absolutamente de ser defendidos pelo legislador.
            Tem-se pela frente um problema representado por essa antinomia. E agora, na terceira parte deste ensaio, tenta-se esboçar uma compreensão da necessidade do fundamento metafísico para a legislação humana, representado pela crença nos deuses e em sua moralidade.
            É bem provável que Platão esteja tentando retomar a ideia arcaica do divino como princípio de unidade-totalidade, como força motriz primordial, como espírito formador do mundo. No tempo das musas, todos se colocavam sob a autoridade dos deuses, e a linguagem servia para dizer o ser e as coisas – o logos estava plenamente na juntura com o ser, dizia o ser, refletia o cosmos, era moralidade no grau mais elevado. Quando os ímpios começaram a propagar um discurso de desvio e aviltamento do logos, pondo em xeque as virtudes norteadoras do bem agir, tornou-se necessário estabelecer como fiel da balança da justiça algo que transcendesse os limites do humano dissimulador e aviltado. Retomar a junção entre a natureza e a lei, ainda que fosse preciso punir eventualmente um justo ímpio ou mesmo matar em nome dos deuses perfeitos, tornou-se um imperativo na Grécia socrática, uma necessidade de desautorizar o preceito de Protágoras que tomava o homem como a medida de todas as coisas. Era preciso, por conseguinte, após as devidas correções das impropriedades cometidas pelos poetas quanto à natureza e ao comportamento das divindades, recuperar a ideia de Deus como medida de todas as coisas, o Deus que se revela e age no cosmos do Estado assim como costuma agir na natureza. Assim, a obediência à lei é, ao fim e ao cabo, obediência à divindade, que tem consigo o princípio, o meio e o fim de todas as coisas. Tudo deve se subordinar a esse Bem supremo e à sua harmonia, pois o homem dominado por sua epythimia encontra muitas dificuldades para apreciar a ordem política e suas leis por si mesmas. Esse é o ideal socrático assumido por Platão no esforço contrário aos sofistas, que iniciaram a oposição entre natureza e lei. Esta é uma tarefa à que se entrega visando a uma ordem política fundamentada e legitimada numa ordem cósmica, da qual ela é somente o reflexo analógico. Não há, portanto, ambiguidade na formulação das leis do Estado magnesiano quando são confrontadas e penalizadas todas as formas de impiedade, incluindo a do ímpio justo, pois este caso pode, no máximo, configurar um mal menor diante de um mal maior que seria o de prejudicar toda a ordem política da cidade. Tampouco se pode dizer propriamente que o legislador sai em defesa dos deuses perfeitos, que dele não necessitam para ser a harmonia e a perfeição do cosmos. Na verdade, o que se manifesta no legislador é sua compreensão da necessidade do logos divino, fruto de sua educação adequada para o governante; ele sabe, por possuir a intimidade com o logos, o que é necessário para que a cidade seja feliz e justa, por participação na ordem cósmica da natureza.
3. Conclusão
            Este breve ensaio tratou sucintamente do conceito de justiça e da elaboração de leis fundamentadas metafisicamente por Platão. Estabeleceu-se a leitura do livro X de As leis, bem como outras partes dessa obra, em contato com os quatro primeiros livros de A república, de modo a compreender-se a definição de justiça em conformidade com as outras virtudes cardeais – a sabedoria, a coragem e a temperança. E, com isso, entender o propósito pedagógico de As leis, delineado como um projeto de oposição aos discursos de aparência dos ímpios, que negavam a existência dos deuses e os consideravam negligentes ou subornáveis.
            Identificou-se uma possível ambiguidade na aplicação das leis aos diversos tipos de impiedade, pois se configurou uma aparente contradição tanto na punição do ímpio justo – aquele que, embora descrente dos deuses, ama a justiça e repudia os injustos – quanto no estabelecimento das penas severas da morte e da negação de sepultamento aos que consideravam as divindades negligentes ou subornáveis. Afinal, como pode haver justiça quando se pune o justo apenas por ser ímpio? E como pode se fundamentar a legislação humana na perfeição e na harmonia do cosmos divino, se a sua obediência exige a aplicação de sanções extremas como o exílio e a morte?
            Só se pode compreender isso dentro do projeto educacional estabelecido por Platão primeiramente em A república e, posteriormente, em As leis. Trata-se de estabelecer um sistema de educação que, contrariamente ao propagado pelos sofistas e físicos, contemple a intervenção dos deuses perfeitos e incorruptíveis na criação do mundo e nos assuntos humanos, trazendo ao homem a possibilidade de viver em consonância com sua razão e pleno domínio sobre os apetites corporais nele enraizados. A ordem política capaz de trazer felicidade à existência humana precisa fundamentar-se e legitimar-se numa ordem cósmica da natureza, o que torna um imperativo categórico o combate a todo tipo de impiedade. Somente assim podem ser transpostos os desejos desmedidos do homem, permitindo-lhe o domínio de si, sem que precise dominar os outros despoticamente. Essa é a via pela qual o logos divino pode descer até os recantos mais ínfimos da vida humana e se transformar em ordem política racional e justa.

Referências bibliográficas
JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Trad. Arthur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2003, 1413p.

PLATÃO. As leis. Trad. Edson Bini. 2.ed. Bauru: EDIPRO, 2010, 543p.
______. A república. Trad. Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006, 419p.

ROGUE, Christopher. Compreender Platão. Trad. Jaime A. Clasen. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2005, 207p.





[1] Cf. Livro II, 653 a-c a fala do ateniense: “O que afirmo é o seguinte: que quando criança as primeiras sensações pueris a serem experimentadas são o prazer e a dor, e que é sob essa forma que a virtude e o vício surgem primeiramente na alma; mas no que diz respeito à sabedoria e às opiniões verdadeiras estabelecidas, um ser humano será feliz se estas o alcançarem mesmo na velhice, e aquele que é detentor dessas bênçãos, e de tudo que abarcam, é de fato um homem perfeito. Entendo assim por educação a primeira aquisição que a criança fez da virtude. Quando o prazer, o amor, a dor e o ódio nascem com justeza nas almas antes do despertar da razão, e uma vez a razão desperta, os sentimentos se harmonizam com ela no reconhecimento de que foram bem treinados pelas práticas adequadas correspondentes, e essa harmonização, vista como um todo, constitui a virtude; mas a parte dela que é corretamente treinada quanto aos prazeres e os sofrimentos, de modo a odiar o que deve ser odiado desde o início até o fim, e amar o que deve ser amado, esta é aquela que a razão isolará para denominá-la educação, o que é, a meu ver, denominá-la corretamente” (grifo nosso).
[2] Um inofensivo pastor da Lídia é capaz de tornar-se um monstro após encontrar um anel que o torna invisível e lhe assegura uma impunidade total.
[3] Reler a nota de rodapé nº 3 deste ensaio, a que trata sobre educação (Leis, II, 653a-c).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A moça da Globo News

A moça da Globo News

         Poucas vezes gostei dos tumultos de final de ano. Antigamente as festas dessa época tinham algo de um sagrado que se despregou dos nossos pensamentos, hábitos, sentimentos. A cultura absorveu as ideias de céus divinos e as transformou em frivolidade e volúpia consumista. E em pressa, muita pressa. Perdeu-se o silêncio, a contemplação. A interioridade humana se tornou uma rua agitada por multidões. Que vão para cá e para lá sem muita noção de rumo. Assim são as coisas. E o último dia de 2014 não foi diferente.
         Desta vez, no entanto, o inusitado veio da multidão para dentro do meu silêncio. Por acaso sintonizei na Globo News naquela noite de muitos fogos de artifícios e estrelas piscantes. Como sempre, a agitação, o frenesi, os palcos iluminados, as aglomerações humanas movidas não apenas por alegria (mas também por álcool, drogas e o que for necessário). De repente, um rosto que eu não via há tempos. Cada vez que ela aparece na TV, eu digo que chegou a moça da Globo News, com sua inigualável força de expressão. Trata-se de Heloísa Fiúza Gomyde, minha amiga no Facebook.
         Prestei atenção na TV. Senti a força daquela mundanidade meio louca. Toda agitação me deixa hoje atordoado, foi-se o tempo em que eu virava o ano em Copacabana, sentindo o gosto de mar da mãe Iemanjá. Tudo ficou excessivo demais. A muvuca passou dos limites. Gente demais, contada agora aos milhões. Multidão incontrolável. Ruas mijadas e fedidas. Desamparo dos drogados, dos bêbados, dos solitários, todos querendo extrair da balbúrdia algum sentido para a vida. 
         Volto a dizer. Desta vez, no entanto, aquelas forças descontroladas passavam pelo filtro da moça da Globo News. Talvez fosse o seu sorriso muito peculiar e a sua precisão para dizer as coisas. Talvez fosse apenas a sua beleza, o seu jeito de enxergar longe, a sua capacidade para exercer o ofício da televisão, a sua leveza de espírito. Talvez o filtro de Heloísa desse o formato apolíneo ao dionisíaco. Eu não sei explicar. Mas o que eu quero dizer é que aquela noite chegou a mim com a intensidade poética de um instante quase sobrenatural, em que se abrem todas as perspectivas para o Ano Novo. Os horizontes descortinados em esperança. Ainda que esse instante de extremo fulgor, porque assim é a vida, se faça acompanhar da obscuridade das incógnitas. Bem sabemos que, no próximo dezembro, alguns de nós não estaremos mais aqui. Nunca mais fogos de artifício, nunca mais estrelas piscantes nos céus da cidade, nunca mais o riso de Heloísa Gomyde.
         No dia seguinte, a moça da Globo News, ainda em Copacabana, noticiava um assalto de turista em hotel do bairro. Oh, não, tudo de novo. Mal começou o ano, outra vez as catástrofes de sempre. O mesmo horror diário da cidade anarquizada e violenta. Muito violenta. Mas outra vez o filtro da Heloísa se pôs em funcionamento. E, embora isso não fosse suficiente para reverter os fatos, ela os tornava suportáveis. Eu não sei explicar isso. Como explicar os mistérios? Vai ver, a alma da Heloísa tem luz de amanhecer, tem a força das tempestades, tem a vastidão dos céus, tudo junto, tudo misturado, tudo resultando numa pessoa que carrega consigo substâncias poéticas naturalmente indefiníveis.

         E, por fim, na sexta-feira à noite, no programa Em Pauta, ela apareceu novamente para falar das pessoas que queriam ser felizes tomando banho de mar à noite. Seu vestido vermelho, sob a luz do cinegrafista, trouxe-a integralmente como mulher para a telinha da TV. Bonita reportagem. Toda a poesia da vida concentrada numa pessoa e nas coisas que ela dizia. Tomara que seja sempre assim, daqui em diante, e que esta brilhante profissional do jornalismo – a moça da Globo News, Heloísa Gomyde – venha a nos lembrar sempre, com sua insistência poética, que a vida vale mesmo a pena. Até quando ela se faz de absurdos e calamidades. 

domingo, 30 de novembro de 2014

Distâncias: longe e perto

Distâncias: longe, perto

Aonde você vai, meu amor?
— Vou para longe, junto com o vento,
para perto dos pirilampos,
viver com pintassilgos
e brincar com o lobisomem!

Aonde você vai, meu amor?
— Vou para longe, junto com a brisa,
para perto dos passarinhos,
andar descalça para sempre
e mergulhar na correnteza do rio!

Lá se foi para longe o meu amor,
viver numa casa com varanda,
acender lamparinas
e chamar as fadas.

Lá se foi para longe o meu amor
acender fogueiras nos campos
e catar estrelas cadentes
como se fossem simples avencas.

Se algum dia eu for para longe,
quero ir para perto do meu amor,
pela mesma estrada poeirenta,
em sua varanda de surpresa aparecendo.

Vou surgir de dentro de uma avenca,
e de noite ser sua luz de lamparina,
e a alegoria de amor que mais lhe encanta.
E aí, meu bem, vou pôr um CD de Chopin,
para suprimir definitivamente as distâncias
e transformar o longe em perto.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Superfícies e subterrâneos


é do nosso direito perguntar tanto sobre a vida? de onde veio? para onde vai? por que assim e não assado?

A vida, em certo ponto do tempo, me deixou com a impressão de que tudo começa e acaba diariamente. Um instante é a claridade, outro, o espasmo do escuro. Não obstante, eu resisto e sobrevivo em meu espelho, entre traços de memória e simples rugas que desencobrem a finitude. Rodopio no redemoinho dos relógios, sem discernimento dos começos e fins, conhecendo apenas a hora dos relógios, mas nunca o sem tempo, outro nome do eterno. Estou no mundo, sozinho nas multidões, tateando no meio dos ruídos, sabendo que no acerto das contas o resultado final é o silêncio irreversível.
Fujo, todos os dias eu fujo; escapo das ruas, escapo dos ruídos, escapo da poeira; me transformo em vento e planta, me disfarço de rocha, me esculpo em argila, numa evasão em que vou ao encontro das chuvas cálidas que dissipam tristezas, águas mornas que desde sempre deram fim a todas as minhas sedes. Sempre que chove calidamente, uma semente se retesa para aflorar na terra, ou uma mulher se prepara para amar e acolher em si o corpo de alguém.                   Até acho que a vida, fora do poema escrito, é mais poesia do que se pode supor. Mas é vida efêmera, perdida na mortalidade e no transitório. Nela, quando falta o encantamento, a aniquilação se excede. Deve haver, pois, algum antídoto na palavra, que serve para atenuar nossa incapacidade de alterar as coisas. Em certo sentido, escreve-se e se lê para encarar a morte, não com punhais e metralhadoras, nem com lágrimas e rezas, nem com apatia e desolação, mas com palavras resistentes que jamais sejam ecos de qualquer medo. Ou seja, uma linguagem da bravura, da guerrilha e das barricadas; de um lado o homem, do outro uma metafísica incompreensível.  
        Por que o homem vive tão diferente dos bichos e das plantas? Ou mesmo das rochas que se deixam amar pelos ventos? Por que durar indefinidamente, ser mais que as plantas ou os bichos, ou que as rochas e os ventos em sua dança de saltimbanco? Por que querer ser mais do que o nada que se é? 
        Tenho tantas questões, pergunto tanto e não sei responder. Então, quando nada mais é possível de fazer, me refugio nas superfícies e nos subterrâneos da vida, tal qual ela é: às vezes tão clareada, outras vezes tão sombria, mas ainda assim vida. 

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Cinco dias de sagração: batalhas entre fantasmas e realidades



Humberto B. Leal


            Nos tempos de Salazar e da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), Antônio Marques de Campos se livra da perseguição política fugindo de Portugal e deixando para trás não apenas sua identidade, mas também a mulher com quem pretendia viver – Maria Elvira, carinhosamente chamada de Nininha. Torna-se Eduardo da Cunha Júnior em Tânger e embarca sozinho, em Dakar, para o Brasil, onde conhece e se casa com uma fotógrafa de nome Miriam, mãe do seu filho, Eduardo da Cunha Neto.
            Eduardo, ex-Antônio, constrói sua nova vida no Brasil, primeiro no Rio de Janeiro, depois em Belo Horizonte. Mas o que vem à tona é um destino cujas estruturas são acossadas permanentemente. O passado resiste dentro dele, como algo não resolvido, e irrompe constantemente não apenas como lembranças aflitivas – o seu primeiro encontro com Nininha no Porto, em março de 1953; a quarta-feira em Poçais em que a PIDE lhe entregou a contrafé; o ronco do avião do aeroporto de Dakar no dia de sua partida em 1957; e tantas outras recordações –, mas também como fantasmas que o perturbam em forma de cantos de galos: “Os galos cantaram pela primeira vez nos meus ouvidos na penúltima véspera de Natal. [...] Estava na cama, lendo [...] Os galos cantaram de repente, no meio da leitura, como se houvesse uma capoeira dentro dos meus ouvidos” (p.16, 17).
            Nascido e criado na serra do Gerês, região norte de Portugal, Eduardo gosta da mudança do Rio de Janeiro para a montanhosa Belo Horizonte, onde se embrenha nas matas e picadas da serra do Curral. É lá que, num domingo de Carnaval, estando Miriam e o filho no Rio de Janeiro, decide rever Nininha. Entretanto, é uma decisão que não vinga e que se dilui em sua fraqueza para decidir. Somente meses depois, isso se torna realidade, após receber ultimato de Miriam: “Por que você não vai logo a Portugal e resolve de uma vez esse seu amor encrencado, hem? [...] Se é por causa do dinheiro, eu arrumo com papai, pode deixar” (p.55). Aí está um exemplo da força das personagens femininas de Cunha Leiradella e de certa pusilanimidade dos seus protagonistas masculinos.
            Este romance visceralmente humano, contado do quinto para o primeiro dia, em tempo narrativo que inverte qualquer linearidade romanesca, ambienta-se em grande parte no regime do autoritarismo político de Salazar e se estrutura numa tríade de pusilanimidade masculina, força feminina e fantasmagoria da má-fé.
            Os protagonistas de Cinco Dias de Sagração são homens fracos, se comparados com as personagens femininas. Dessa fraqueza masculina, no entanto, é que emergem os dilemas, os impasses, as indecisões e toda a substância do romance. Afirme-se, em favor desses homens, que talvez sem essa debilidade não houvesse drama transformado em relato literário. São eles, os heróis tíbios de Cunha de Leiradella, que expressam o humano na intensidade das contradições, nas imprecisões da vontade e do desejo, nos fracassos da vida concreta, nos ideais que jamais perdem sua condição abstrata. Sem eles, a força feminina jamais poderia ser ressaltada. Tomemos como exemplos dessa tibieza os personagens Carlos Manuel, João Miguel e Eduardo.
            Carlos Manuel, irmão de Nininha, é o grande companheiro de Tónio, o Antônio que ainda não se transformou em Eduardo. Ele é quem incentiva o jovem vindo da serra do Gerês para estudar medicina no Porto a escrever sobre política e atacar o regime salazarista no pasquim Primeiro de Dezembro. Os dois se inspiram no tio de Carlos Manuel que, ex-prisioneiro do sistema de Salazar, aparenta o dobro da idade – “Aos trinta e cinco anos [...] magro, curvado, o cabelo todo branco e com ataques de tosse estrebuchantes, andava pelos corredores da casa da irmã como um fantasma” (p.204). O Quixote lusitano. O modelo de coragem a ser imitado. Mesmo sendo um Aquiles derrotado.
            O tio de Carlos Manuel é o herói desventurado. O que resistiu ao ambiente de censura e propaganda do regime salazarista. O que foi destroçado na Fortaleza de Peniche. O que esteve no inferno e retornou vivo para contar que “fizeram de mim gato e sapato, até cabos de vassoura no cu me enfiaram [...]” (p.205). Apesar disso, esse homem desvela o país para o sobrinho e seu amigo Tónio, lhes transmite verdades, disseca a hipocrisia e o cinismo de Portugal. Por isso ele é a exemplaridade para os jovens que detestam Salazar e se inspiram na causa comunista. É Antônio, o escritor e não mais o estudante de medicina, o panfletário e não mais o ingênuo da aldeia católica da serra do Gerês, quem diz
Eu não sabia nada de Portugal. Na minha aldeia, o velho padre Júlio dizia todos os domingos nos sermões que Salazar protegia Portugal das guerras e das fomes e que a mãe de Deus protegia Salazar. Por isso todos deviam rezar e jejuar e pedir a Deus que Salazar durasse sempre, para que os comunistas não arrasassem Portugal. E todos rezavam e jejuavam, e o velho padre Júlio sorria e abençoava todos nós. Na minha aldeia não havia rádio nem luz elétrica, e o único jornal que lá chegava era o informe mensal do arcebispo.
No Porto, eu não ia mais à missa nem me confessava todas as sextas-feiras, mas os jornais e as rádios diziam a mesma coisa. Se Portugal não tinha fome nem guerra, é porque Salazar velava dia e noite no palácio do governo e a Virgem de Fátima orava por todos nós. E os noticiários que passavam nos cinemas provavam isso. As pessoas riam e cantavam e agitavam milhares de bandeirinhas, sempre que Salazar aparecia.
Eu não sabia que Portugal tinha medo e que as pessoas eram obrigadas a rir e a cantar e a agitar bandeirinhas. Até encontrar Carlos Manuel e o tio, o meu mundo era a minha solidão, cultivada na Rua do Bonjardim, e o meu cinismo, escorrendo bílis nas calçadas da Rua Chã.
            Carlos Manuel, em 1951, de cabelo louro cortado rente e usando calça curta, aproxima-se de Tónio, no Café Palladium, com um pacote de livros debaixo do braço e o Primeiro de Dezembro, então quatro folhas de papel almaço sem pauta, manuscritas. Aí os dois se conhecem. E aí também Carlos Manuel tenta convencer o poeta Tónio a escrever e a distribuir o pasquim. Assim começam uma amizade férrea e a tremenda aventura de escrever contra Salazar.
Anos depois, mais precisamente em março de 1957, no entanto, Carlos Manuel se casa com Rosa, que não gosta de Tónio e Nininha. Aliás, Rosa, filha de um alfarrabista da Rua do Almada, opinava que o Primeiro de Dezembro era uma piada e tempo perdido de escrita, porque ninguém o lia. Tónio e Nininha retribuem a antipatia de Rosa, também não gostam dela e tentam abrir os olhos de Carlos Manuel. Por influência de Rosa, o pasquim perde força de argumentação, seus artigos parecem escritos mais a favor do que contra a ditadura salazarista. Todos os esforços de Tónio e Nininha contra Rosa se mostram inúteis. Mesmo quando Carlos Manuel ousa enfrentar Rosa, tem de recuar, porque ela está grávida dele. Acabam se casando. E, em agosto de 1957, Rosa denuncia Tónio à PIDE. Não satisfeita, anos depois, a mulher delata o próprio marido, que é preso em 1964 e mantido incomunicável até 1970; ao retornar para casa, “parecia um velho. O cabelo estava todo branco, não tinha os dentes da frente, e mais parecia um tísico” (p.46)
            Veja-se também o caso de João Miguel, o companheiro de Nininha. Depois que ela retorna a Lisboa, não havendo conseguido tomar o avião em Dakar com Tónio, por causa de uma questão burocrática, é João Miguel, tempos depois, quem a acolhe e quem se torna a companhia dela. Um dia, ele dorme na casa de Nininha e de lá não sai mais. Não se casam. Juntam-se. E vivem sob as condições estabelecidas por Nininha. Ele nada cobra dela, contenta-se com a sua presença, mais nada. Tanto é que, na noite em que Eduardo, ex-Antônio, retorna a Portugal e se encontra com Nininha, João Miguel os segue de longe até o restaurante e chega a sentar-se numa mesa próxima, pagando a conta do jantar. Um homem generoso e compreensivo? Ou um frouxo que acedeu à vontade de Nininha de ciceronear Eduardo em sua estada em Portugal e de levá-lo até mesmo para dentro do quarto do casal, onde ela conserva lembranças da juventude e de Tónio?
            Antônio ou Eduardo – o caso mais emblemático de fraqueza das personagens masculinas de Cunha Leiradella em Cinco Dias de Sagração – é o homem que jamais decide. Pusilanimidade e má-fé. Seu retorno a Portugal para rever Nininha só ocorre graças ao estímulo de Miriam, que praticamente o obriga a viajar e a resolver a questão do “amor encrencado”. Aliás, ao retornar a Portugal, reencontra Nininha e nada resolve. Só confirma seu espírito de indecisão. Este é seu destino: permanecer no impasse. Por quê?
            Podem ser comentadas, dentre outras, três passagens do romance que bem demonstram essa fraqueza de Antônio ou Eduardo. A primeira delas, sua melancólica experiência militar na Índia Portuguesa, como alferes miliciano da arma de artilharia antiaérea. Encarregado de comandar um grupo de quinze homens e de ocupar um posto militar em Polorá, uma pequena aldeia situada num vale entre montanhas, demonstra firmeza inicial ao se opor às ordens do agente Lourosa, representante da PIDE, e ao assumir de fato o comando de sua tropa. Chega a apontar a metralhadora no peito do agente, para fazer valer sua vontade. Mas, logo em seguida, talvez devido ao fato de discordar da política colonialista portuguesa e porque sua personalidade seja pouco dada a coisas como comando de tropa, ele abdica de suas responsabilidades e as delega ao sargento Cardoso. O agente Lourosa, por exemplo, é assassinado por um dos soldados, e uma tramoia é engendrada pelo sargento Cardoso, sob o consentimento do alferes, para distorcer o fato: dá-se a morte do agente por picada de cobra e se permite a fuga do assassino. Tudo em nome da “verdade ideológica” contrária ao regime e ao colonialismo português. Ao fim e ao cabo, Tónio, a este respeito, diz que
A minha carreira militar não me honrou, não honrou a Índia, nem honrou Portugal. Terminou, simplesmente. Sem nenhum ato de bravura, sem medalhas e sem depressões psicológicas. Prosaicamente atacado de beribéri, deixei Polorá na madrugada do dia 27 de novembro de 1956 e desembarquei em Lisboa como tenente. [...]
Dei baixa no quartel de Espinho no dia 14 de março de 1957, e naquela noite tomei a minha quarta e última grande bebedeira militar. (p.168)
            Outra passagem que demonstra a fraqueza de Tónio é sua fuga para o Brasil, desde o instante em que recebe a contrafé de um agente da PIDE ao momento em que, deixando para trás Nininha, parte sozinho de Dakar para o Brasil. O medo de ser destroçado nos porões da Fortaleza de Peniche – jamais Tónio ousaria ser o herói desventurado que foi o tio de Carlos Manuel, aquele que visitou o inferno e de lá retornou para inspirar os jovens a panfletar contra Salazar – o leva a fugir de Portugal, com Nininha, em agosto de 1957, via Tânger.
            Os dois entram em Tânger com suas identidades: Maria Elvira Vieira de Matos e Cunha; e Antônio Marques de Campos; ela, natural do Porto, freguesia da Cedofeita; ele, da vila de Terras de Bouro, freguesia de Covide. Pouco tempo depois, recebem um jornal e um aviso de Carlos Manuel. Não podem mais regressar a Portugal. Havia uma ordem de prisão contra o “perigoso agitador profissional e membro do chamado partido comunista português” Antônio Marques de Campos. O mensageiro faz a entrega de uma Carta de Chamada, selada e autenticada, em nome de Eduardo da Cunha Júnior, natural da cidade do Porto, freguesia de Massarelos, contratado para atuar no comércio e auxiliar de balcão numa sapataria na cidade do Rio de Janeiro. Desse modo, morria o Tónio, e nascia o Eduardo.
            Mas, e quanto à Nininha? Faltava-lhe a Carta de Chamada, documento sem o qual não poderia acompanhar Tónio, quer dizer, Eduardo, ao Brasil. Mesmo assim, ele raspa a barba e o bigode, corta o cabelo à escovinha, troca a identidade, utiliza passaporte falso e a Carta de Chamada. Os dois deixam Tânger e vão para Dakar, onde tentam obter a documentação que falta para Nininha. Um mês de tentativas em vão.
            Tónio não se arrisca. Não fica em Dakar por Nininha. Prefere fugir e, quem sabe, do Brasil, obter e enviar-lhe uma Carta de Chamada. Mas como?
Despedi-me de Nininha. Abraçamo-nos em silêncio, no meio das pessoas que passavam. Nininha pegou o meu rosto com ambas as mãos e olhou-me nos olhos, fixamente.
– Nunca me esqueças. Eu nunca te esquecerei.
Foram as únicas palavras que me disse naquele dia e as últimas que lhe escutei. Beijei-a.
– Nunca te esquecerei, Nininha. Juro.
Deixei-a junto da porta e corri para o avião. Ela ficou isolada, imóvel, com as mãos cruzadas no peito e os olhos parados e secos. Pendurada no pescoço, a medalha da Virgem de Guadalupe. Voltei-me e acenei-lhe. Ela não respondeu. Parecia uma estátua quebrada, jogada num canto de jardim. Entrei no avião e não olhei pela janela. Não valia a pena. Nenhum de nós podia fazer nada. Recostei-me no assento e fechei os olhos. E enquanto o avião corria pela pista, desejei ardentemente que Salazar morresse logo. Ou então eu. (p.203)
            Covardia bruta. Abandona a mulher simplesmente e apenas nota que ela “parecia uma estátua quebrada, jogada num canto de jardim”. Incapaz de modificar a situação, ele entra no avião e não olha pela janela, porque “não valia a pena”. Para ele, nenhum dos dois podia fazer nada. Ora, Nininha está fazendo o que lhe é possível, ou seja, espera dele uma atitude resoluta de homem: que ele retorne e assuma o destino ao lado dela, quaisquer que sejam as ameaças, os perigos. Mas Tónio, agora Eduardo, resigna-se a recostar-se no assento e a fechar os olhos. O avião corre pela pista, e o máximo que consegue sentir é desejar ardentemente a morte de Salazar, ou a sua própria morte. Nada mais covarde do que isso.
            Que importa a Eduardo o fato de que Nininha terá de enfrentar a PIDE em seu retorno a Lisboa?
            Quando o avião desaparece no horizonte, levando para longe seu amor covarde, Nininha sabe que precisa enfrentar a vida fática. Nada é tão real quanto regressar a Lisboa e confrontar-se com os agentes de Salazar. Que terá a dizer a eles? Como se safará e, sobretudo, como protegerá o seu amante poltrão? Assim se manifesta a força das personagens femininas de Leiradella, exatamente no contraste com a covardia dos homens.
Nininha recebe dinheiro de um primo para regressar a Lisboa após sair de Dakar. Este primo a livra da PIDE e se torna seu confidente, tomando conhecimento inclusive dos seus segredos com Tónio. Nininha escreve a Tónio no Brasil, contando-lhe tudo. Tónio, agora Eduardo, tem crises de ciúme. Nininha pede ao primo que escreva a Tónio. E o primo o faz, como bom amigo de Nininha, dizendo a Tónio que Nininha sente um enorme vazio. Aliás, vazio este que nada mais era que a ausência de Tónio. Dá-se então que o inseguro e enciumado Tónio manda a Nininha uma carta de rompimento:
Maria Elvira, já que ele preenche o vazio que tu tens, fica com ele. O meu vazio ficará comigo. Infelizmente, não tenho quem o preencha. Adeus. Eduardo. (EX-TÓNIO). (p.271)

            A força das personagens femininas. A fraqueza das personagens masculinas.

– Só porque foste tu a partir, pensaste que só tu tinhas o direito de sentir a solidão.
Passou as mãos pelo rosto. Acendi um cigarro.
– Escuta...
Ela olhou-me.
– Não é verdade isso, Eduardo?
Puxei uma tragada.
– Eu só tinha vinte e três anos, Nininha. E tava muito só. Sem ninguém que me amparasse.
Nininha abriu a minha mão em cima da mesa e colou a palma da mão dela na minha.
– Eduardo, quando tu tinhas vinte e três anos, eu tinha vinte e dois. E também estava só. E continuo só até hoje.
Fechei os olhos em volta da mão dela. Ela abanou a cabeça.
– Escrevi-te dezenas de cartas e pedi a ele que te escrevesse. Escreveu-te e tu nunca respondeste. Nem às minhas cartas nem às dele.
Apertei a mão dela com força e puxei uma tragada.
– Nininha, que adianta isso agora? Eu vim a Portugal pra dizer que ainda gosto de você.
Ela tirou a mão num gesto seco e pegou o maço de cigarros.
– Eu penso que tu nem isso sabes.
Acendeu um cigarro e abanou a cabeça.
– Tu não mudaste mesmo nada, Eduardo. (p.272, 273)
            Cunha de Leiradella, com rara habilidade, consegue extrair dos contrastes dos seus personagens de Cinco Dias de Sagração a vida tal qual ela é. Neste romance, a linguagem está a serviço da vida, jamais para atender a uma lógica ou teoria literária. Todas as falas exprimem desejos, frustrações, vazios, contradições, enfim a crua humanidade. Nada está fora do lugar, exatamente porque tudo está desordenado. Igual ao mundo da vida.
Só o autor, em contrapartida, pode explicar a má-fé tão presente em Eduardo, ex-Tónio – entendida a “má-fé” como incapacidade do sujeito de assumir seu destino, de tomar as rédeas de sua existência. Ao invés de comprometer-se com suas possibilidades, o herói de Leiradella deixa-se cair no abismo das indecisões e dos medos. Não enfrenta as realidades, prefere o convívio dos fantasmas. Situa-se permanentemente cindido entre o que deseja ser e o que não tem coragem de ser.
Tem-se a impressão de que Cunha de Leiradella escreve também para se salvar dos seus fantasmas ou de seus “galos que cantam como se houvesse uma capoeira dentro dos ouvidos”. Fantasmas e realidades se confrontam nesse grande espetáculo que é a literatura. A ambos o escritor concede o privilégio da palavra para que sejam do jeito que são e, assim, possam viver simplesmente e sem mais assustar ninguém.
Cinco Dias de Sagração é esta reconciliação de fantasmas e realidades.


Referências Bibliográficas

LEIRADELLA, Cunha de. Cinco Dias de Sagração. Rio de Janeiro: Record, 1993, 287p.