sábado, 13 de maio de 2017

Dona Ana em seu domingo de maio na iluminada Manaus

     Ainda faltavam seis dias para que ela completasse dezessete anos. Pois no sábado, dez de agosto de 1957, ela sentiu as dores do parto logo depois do almoço. Foi levada às pressas para a Santa Casa de Misericórdia. Ali, faltando quinze minutos para as cinco da tarde, deu à luz seu primeiro filho, o primogênito dos nove que viriam mais tarde. Não sei como os astros se posicionavam no céu da Amazônia naquele instante. Tampouco se uma onça ou o Mapinguari urraram no fundo da floresta. Ou se os ventos moveram com mais força as águas do rio Negro. Até hoje ignoro se as grandiosidades e as pequenezes do nosso destino já se encontram presentes nessa primeira lufada de ar que penetra com força nos pulmões das crianças e delas arranca um choro de espanto. Eu era apenas um menino muito branquinho que havia brotado no meio da oca.
     Deixo a memória correr no rumo daquela época. A gente morava no final da Avenida Sete de Setembro, numa estância (nosso modo de dizer a palavra cortiço) que começava numa calçada esburacada e terminava numa escada de madeira encardida com vista para o rio Negro. Morava-se em quartos e porões em condições precárias. Havia um corredor úmido, de paredes verdes de musgo, que nos conduzia para o barranco do rio, depois de passar pelo pátio das latrinas coletivas.
     Desde pequena, minha mãe era trabalhadeira. Junto com a tia Rosa, sua irmã mais velha, ajudava a vovó Paula na lavagem de roupa pra fora. A vovó se sentava na balsa de sapopemba, debaixo de sol forte, e lavava a roupa das famílias de posse daquela provinciana Manaus. Mamãe e a tia Rosa cuidavam dos varais e quaravam os lençóis brancos. Daquele pedacinho de terra, entre o rio e o cortiço, cuidado por aqueles mulheres fortes e imbatíveis, vinha o pão de cada dia. Elas, mais tarde, passariam aquela roupa toda a ferro de carvão. E aos sábados, mamãe botava o tabuleiro de roupa na cabeça e ia embora para entregar às madames a roupa cheirosa da semana. E para trazer as trouxas de roupa suja.
     Certo dia chegaram ao cortiço uns soldados do quartel do Exército da ilha de São Vicente. Entre eles vinha um cabo de nome Humberto e que era conhecido como Ticá, porque gostava muito de beber um guaraná com esse nome. Era um moço humilde, gentil, galanteador. Conquistou a mamãe, que ainda pouco mais que uma criança foi dividir a vida com ele. Ela ignorava que ele também gostava muitíssimo de beber cerveja e arrastar os pés no Cabaré do Chinelo. Deu a ele muitos filhos e o perdoou incontáveis vezes por tantos desatinos. Cuidou dele até o fim.
     Hoje a mamãe enfrenta a ameaça do escuro do Alzheimer. Às vezes, ela se perde nas deslembranças, nos pesadelos, nos delírios, nas incertezas. Mas se reencontra com a lucidez quando suas crianças de antigamente, agora todas transformadas em gente madura, chegam à sua casa com os netos e bisnetos. Ela pede música e alegria, que já está exausta da melancolia e da solidão. Quando se perde a memória e o rumo das ventas, mergulha-se inevitavelmente num abismo desprovido de cantorias. Este é o caso dela. Ah se Deus pudesse quarar minha mãe num varal estendido às margens do rio Negro, ah quem dera ela pudesse receber tanto sol divino que desmanchasse a escuridão do Alzheimer e o esquecimento de si mesma. Mas as águas do rio Negro não são as águas de Betesda, e é preciso a gente se conformar com o desamparo debaixo dos céus.
     Amanhã é o dia das mães. Que faça uma manhã muito radiante em Manaus. Que a família se reúna em torno de um bom tambaqui na brasa. Que corra uma brisa fresca durante a tarde. Que à noite faça lua-cheia, que seja uma lua tão bonita quanto a que contemplo agora de minha janela. Eu não vou estar presente. Ainda tenho coisas para fazer longe de lá, eu que me tornei estrangeiro dentro do meu próprio país e fui viver noutras terras. Mas sei que vou retornar para as grotas e os igarapés das minhas florestas. Vai chegar o dia em que meu exílio já não fará mais sentido. Então poderei me juntar, em definitivo, aos meus antepassados, aos meus mortos, aos meus vivos. Enquanto isso, minha brava dona Ana, mulher a quem devo a vida, curta seu domingo. De longe fico amando a senhora com todas as minhas forças, com toda minha virilidade, com toda minha inocência. Lá no fundo de mim existe um menino branquinho que até hoje gosta do seu aconchego.
     

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